quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Recomeçando a Vida do Zero

Criei esse blog em 2012 quando meu patrimônio era zero, nesse meio de tempo fiz minhas correrias e consegui atingir a independência financeira. Muitos dos que aqui chegam devem ter histórias semelhantes, ou estão justamente no início da caminhada ou mesmo estão devendo até as cuecas e se ligaram que isso não é legal. Não importa, se você está lendo esse texto é sim uma pessoa em busca de prosperidade na vida como um todo, não só na financeira.

No post anterior fiz críticas pesadas ao meu pai, como o nível dos comentaristas é altíssimo, recebi críticas de excelente tom e extremamente construtivas, aproveito para agradecer a todos que de alguma forma tentaram me ajudar com palavras, meu muito obrigado. Meu pai pode ter sido (e ainda é) burrão em relação ao dinheiro porém uma coisa jamais poderei negar: o velho jamais se deu por vencido e nunca desistiu de lutar, mesmo quando a situação era extremamente crítica e desfavorável. Vi meu pai quebrar e recomeçar diversas vezes na vida (e infelizmente talvez verei novamente) e isso me ensinou muitas coisas, entre elas:

  • Dinheiro não aceita desaforo, uma vez que você fez merda, já eras. É preciso um ganho de 100% pra recuperar uma perda de 50%. Isso que dizer que mesmo tendo todo o cuidado ninguém está livre de se foder imensamente e quebrar. Meu principal objetivo do ponto de vista financeiro é justamente jamais quebrar.
  • Em caso de grande bosta você deve ser capaz de ter sangue frio o recomeçar sua vida de alguma maneira. Ficar de mimimi choramingando sobre o leite derramado não vai funcionar. O certo é engolir seco, encarar e partir pra cima. Isso é algo que meu pai sempre fez com maestria.
  • Fodam-se os outros. Se hoje você está bem de vida, tem carro bom, mora bem, come fora com frequência será visto de uma maneira, se amanhã precisar abrir uma pocilga pra vender cachaça e se sustentar será visto de outra. Isso não pode te segurar.
Digamos que após um apocalipse qualquer eu tivesse zero reais no banco. O que faria? Vou tentar esmiuçar meu plano aqui...

Resumo da ópera: casal, na faixa de 35 anos, sem filhos, pagando aluguel, sem carro, sem imóvel próprio porém sem dívidas.

Trunfo: ambos empregados, ambos em nível técnico, boa empregabilidade. Salário familiar: R$ 7.500,00 líquidos.

Super trunfo: MINIMALISTAS. Bia e eu não temos o menor problema em viver sem carro, pagar aluguel, ter móveis das Casas Bahia, andar de transporte público, levar marmita, ser subordinado à outras pessoas, etc. Acredito eu que a vida minimalista seria meu melhor aliado em caso de recomeço.

Despesas: para entender como estão minhas despesas clique aqui (houve algumas mudanças, post em breve). Acredito que me mudando para um lugar mais barato (sim, é possível viver com dignidade em SP gastando uns 1000, 1100 reais por mês), tirando as despesas com veículo e educação, segurando um pouco a onda do mercado, Bia e eu conseguiríamos viver com uns 3500 por mês. Menos 7500 de receita, temos 4000 de saldo.

O que eu faria com esses 4000 mensais? Well, acredito que todo mundo deve ter um teto. Dinheiro na corretora rendendo mais que o aluguel é legal e tals, mas brother, se tudo der errado você ainda sim precisa de um teto, portanto providencie um. Acredito que ao contrário que os gurus de finanças propagam, os pobres fazem certo sim se enfiar num MCMV da MRV em 30 anos. Pra quem não tem educação financeira alguma é melhor pagar juros num apartamento de 45m² que viver em baixo da ponte. Portanto se estivesse recomeçando do zero a primeira coisa que faria seria comprar um imóvel pra viver, esse imóvel poderia ser sem problema algum um MCMV de 200k em algum bairro periférico com boa estrutura e próximo ao nosso trabalho.

O plano é extremamente simples e conservador: 4 anos jogando o surplus de grana na poupança, compraria a vista o tal teto. Simples assim.

Mais um ano e compraria um carrinho popular (se fosse realmente necessário), mobiliaria o apartamento e tiraria férias bacanas porém bem frugal.

Veja que com 40 anos de idade eu teria um apartamento e carro quitado e já sobraria dinheiro. Isso tudo em 5 anos de trabalho normal, CLT, 44h semanais de um casal. Sem me matar de fazer hora extra e sem contar com o 13º e férias (use-os para descontar a inflação numa conta de padeiro). Perceba que para um casal qualquer, de average Joe e Marie  fazerem o mesmo não é nada difícil. Não usei estratégias sinistras nem conhecimento especializado, qualquer um que saiba o mínimo de matemática pode fazer o mesmo.

Mesmo sendo possível ter o mínimo para se viver em pouco tempo e com salários ordinários o que a maioria dos casais faz? Compra carro zero financiado, roupas de marca e arruma 2 filhos. Muito fácil entender o porquê de estarmos num mundo fodido.

Ok, em 5 anos de trabalho, 40 de idade reconquistei a dignidade, tenho onde morar e um carro, mas e agora? Agora aproveitaria a sobra de caixa deixada pelo fim do aluguel e investiria. No que? Não sei... Provavelmente faria como muitos dos mais espertos da blogosfera fazem: procuraria informação e me meteria na renda variável. Muitos me perguntam o porquê de não investir em RV. A resposta é simples: não preciso. Não me levem a mal, não sou rico, não tenho dinheiro saindo pelo ânus, porém com sorte consegui ganhar uma boa quantia de dinheiro em pouco tempo o que me ajudou a formar patrimônio muito rápido, não preciso me enfiar em risco para obter retorno melhor. O que não aconteceria se precisasse investir a partir de salários normais, por isso digo que nesse caso talvez arriscaria um pouco mais em troca de retorno pouco melhor.

Mais importante que onde investiria meu suado dinheirinho mensalmente é estabelecer diretrizes de como tocar a vida, e isso incluiria:

1- Sossegar no apartamento próprio. Não me mudaria, não desejaria um upgrade de imóvel, nada disso. Iria sossegar o cu no tal MRV e por ali ficaria.

2- Nada de troca de carros. Desnecessário explicar. Seria igual aquele tiozão que anda de Santana CL 91 único dono até hoje...

3- Viajaria anualmente porém sempre de maneira frugal (coisa que já faço hoje em dia).

Difícil dizer como seria minha velhice num cenário desses. Não faço ideia de como será no cenário real, que dirá num diferente... Porém esse exercício serve para colocar o cérebro pra trabalhar e identificar saídas para os problemas mais sinistros. A conclusão que chego é que se precisasse recomeçar hoje com certeza não seria lá muito sofrido porque a vida simples e sem muita ambição idiota me traz tranquilidade em todos os aspectos da vida.

Perceba que somos um casal simplão, como muitos por aí. Temos uma renda razoável porém bem abaixo do que muitos possuem e não é nada difícil poupar 50% ou mais do salário. Caralho, ficar rico não é fácil mesmo, porém pra ser pobre também é necessário certo esforço... E você, já parou pra pensar nisso?

sábado, 9 de setembro de 2017

E se você precisasse fugir do furacão?

Sábado, 9/9/17, a Flórida aguarda apreensiva a chegada daquele que pode ser o maior e mais destrutivo furacão de todos os tempos. Governador e presidente decretaram estado de emergência, ninguém ao certo sabe o que pode acontecer se esse furacão atingir a central Flórida com toda a força que está parecendo ter. Milhares de pessoas estão rumando ao norte em busca de regiões mais seguras, nesse momento não há mais hotéis na Georgia, Alabama, Carolina do Sul e mesmo na Carolina do Norte os quartos são escassos.

Os americanos sabem muito bem como lidar com furacões, as crianças são ensinadas desde cedo na escola como sobreviver à catástrofes naturais, todos se preparam, existem alimentos e outros suprimentos próprios para esses momentos de crise (viva do capitalismo opressor!!!). Claro que enxergo um certo lado negro disso: todo furacão que ameaça chegar perto do país a mídia transforma imediatamente em "a maior tempestade da história" (mas isso não poderia ser diferente, jornalismo é a profissão mais leviana após a "profissão" de político) e imediatamente os americanos disparam rumo a latas de chilli, packs de 30 água de meio litro por $1,99 e baldes de peanut butter. O consumismo americano é realmente algo impressionante e me incomoda, por outro lado quase ninguém noticia que a JetBlue oferece qualquer passagem de saída da Flórida por 100 dólares, as Turnpike estão com pedágios liberados e quase ninguém se aproveitou da crise para aumentar preços (o que foi visto com mais frequência, pasmem, em mercados brasileiros e latinos).

Mas não é sobre a tragédia anunciada nem sobre os possíveis aproveitadores ou solidariedade americana que venho falar hoje, também não vou entrar no mérito que o Brasil "é um paraíso sem catástrofes naturais" e sim fazer uma pergunta e estimular a reflexão:

E se você precisasse fugir do furacão? Digamos que um furacão está se aproximando da sua região e você precisa evacuar imediatamente sua casa, levando somente o importante e sabendo que há um sério risco de quando voltar não ter mais nada do que você está vendo ao seu redor nesse momento. O que você faria?

Me peguei fazendo essa pergunta pra mim mesmo e confesso que mesmo pra alguém objetivo e pragmático como eu é um assunto bem difícil, bem complicado decidir, sem contar o fato que não tenho o menor preparo para lidar com uma situação como essa (seria mais útil ensinar como se preparar para uma fuga ou fórmula de Báskara?). Bem, tenho algumas coisas a meu favor: o estilo de vida minimalista, o controle financeiro e o foco no que realmente importa. Vamos destrinchar isso...

Ser minimalista significa que tenho poucas coisas e que as coisas que tenho não são coisas "sagradas", não tenho muito apego material. Talvez essa seja a característica principal que me faria obter sucesso num momento de fuga. O apartamento onde moro é alugado mas levando em consideração que fosse próprio o sentimento seria o mesmo: "o seguro paga!", foda-se! Se inundar, parede mofar ou desabar, foda-se, só espero o cheque da seguradora. Meus móveis são todos das Casas Bahia ou de segunda mão, com 5k mobilio minha casa inteira novamente, dinheiro esse que não me faria muita falta na altura do campeonato. Não tenho joias, coleções, eletrônicos caros, nada disso. Se precisasse fugir hoje, pegaria Bia, o cachorro, comida, colocaria os documentos numa caixa e pronto, mudança feita sem deixar muita coisa relevante pra trás. O minimalismo além de facilitar minha fuga me ajuda a não ficar tristinho por perder coisas.

Controle financeiro: tenho sempre 3k em espécie em casa. Me julguem! Sim, tenho dinheiro vivo depreciando no fundo de uma gaveta (ops, contei o esconderijo, rsrs!). "Ah Corey, pra que isso, deixa na poupança, mimimi" Brother, sabe esses programas gringos que passam no Discovery onde nêgo se prepara para os mais variados tipos de apocalipse, desde colapso econômico até invasão de zumbis? Pois é, esses caras são os loucos até que o Rick comece dar tiros por aí com sua 45... Foda-se, ter cash me deixa tranquilo, trás uma paz de espírito legal e o mantenho. Na fuga do furacão me arrependeria de não ter 10k invés de 3... Além disso poderia ficar meses sem trabalhar por saber que não teria problemas financeiros, a busca pela simplicidade e automação me levou a colocar tudo no débito automático/automatizado, portanto poderia continuar dias e dias longe de casa e continuar com as contas pagas... Percebem onde quero chegar? A tal da IF que muitos imaginam como o gatilho para "Parar de trabalhar" assume aqui seu real papel: trazer tranquilidade.

O foco naquilo que importa tem a ver com o minimalismo. O que realmente importa pra mim no dia de hoje? Minha família. Quem é minha família? Bia, eu e o cachorro, nada mais. Tenho foco, cuido daquilo que é importante pra mim, não disperso energia e foco no que é irrelevante. Pais e demais familiares, amigos e colegas? Se virem, tenho uma família pra cuidar. Egoísmo? Sem dúvida! E quem foi que estabeleceu egoísmo como algo ruim? Quanto mais você dispersa energia, mais longe de alcançar seus objetivos você fica, e isso é óbvio, mas muita gente não se dá conta de onde está desperdiçando essa energia... Engraçado como sou extremamente liberal para umas coisas e conservador, ou mesmo retrógrado para outras. Ser Homem (com "H", ou o famoso homão da porra), não tem a ver com músculos ou BMWs e sim como fidelidade (no sentido amplo da palavra) e compromisso com aquilo que se propõe a criar e nada, absolutamente nada, deve ser mais importante que sua família, e família não é necessariamente pai, mãe e irmãos. Família são aquelas pessoas que estão DO SEU LADO, todo o tempo, que estão lutando com você por seus objetivos, que são nada mais que a extensão do seu corpo, são aquelas pessoas que estão 100% com você, que entram na briga batendo no seu adversário mesmo sem saber o lado certo... Família pode ser seu pai e mãe, sua esposa (como é meu caso), seu roommate ou simplesmente você mesmo, muita gente seria muito mais feliz e próspera se entendesse que não há ninguém do seu lado e que está sozinho pra lutar o que não necessariamente é ruim ou desvantagem... Jamais fique preso a relacionamentos tóxicos, seja com quem for: pai, mãe, irmão, esposa... não deixe outras pessoas te afogarem, não carregue âncoras. O oposto também é verdade, uma vez que você encontrou alguém pra lugar com você SEMPRE, agarre-se a essa pessoa com unhas e dentes. Perceba que os maiores homens da história possuem casamentos sólidos, perceba isso aqui mesmo na blogosfera, veja que os blogueiros mais top são casados e possuem relacionamentos excepcionais com suas esposas. A união faz a força e isso não é um jargão besta.

Sei que viajei na maionese, mas esse rodopio todo é pra dizer que se precisasse fugir do furacão (apocalipse zumbi ou terceira guerra mundial) nesse exato momento, colocaria Bia, o cachorro, documentos e minha grana num carro/avião/barco/bicicleta e iria pra onde fosse possível, faria o que fosse possível pra protege-los sem olhar para trás ou para os lados. Esse furacão já me ensinou uma lição: homem que é homem deve estar preparado sempre, pra tudo. Peço a todos aqueles que possuem algum tipo de fé para que orem/rezem para as vítimas do furacão e para que a destruição seja pequena, forte abraço!

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A Bolha da Classe Média

A Bolha da Classe Média
2015

Bia e eu estávamos na sala de espera da clínica onde aguardava para ser atendido pelo cardiologista. Havia acabado de sofrer uns piripaque cardíaco devido ao stress do trabalho e estava sendo arrastado para acompanhamento médico (nós homens somos uns idiotas, temos medinho de ir ao médico e quase sempre só nos cuidamos devido a pressão das nossas esposas). A clínica onde meu cardiologista atende fica em Pinheiros, bairro classe média-alta de São Paulo, enquanto aguardava ouvi bibislhoteiramente a conversa entre duas mulheres ao meu lado:

- É Jurema, não teve jeito, até que tentei mas não deu, precisei sair da Sulamérica, eu e o Paulo pagávamos 6 mil, não dá né, a crise atingiu nossa porta, tive que trocar para esse Prevent Sênior (falando com ar de desdém) onde pelo menos pagamos só 3 mil. Olha, até que o atendimento é bom, viu?! E o Dr José também atende por ele, graças a Deus.

2016

Na primeira semana trabalhando na primeira temporada que passei pela empresa que trabalho atualmente estava procurando me enturmar e conheci Rebeca, uma simpática menina de 20 e poucos anos, já havia notado sua dedicação ao trabalho e também seu temperamento forte, digno de quem apanhou e por isso se fortificou. Certo dia, no refeitório Rebeca sentou-se do meu lado, mostrou-me o celular e disse:

- Olha Corey que pôr do sol lindo! - mostrando a tela do celular - adoro esse lugar!

Olhei pra tela e me deparo com uma foto de um pôr do sol realmente belo, foto essa que parecia ter sido tirada do alto de algum morro, com o que parecia ser uma favela em volta. Segue o diálogo:

- Nossa, realmente é lindo! Onde é?
- É no Grajaú, onde eu morava com minha mãe...
- Morava? Não mora mais?
- Não, Corey, infelizmente, eu amo aquele lugar... é favela, sabe, mas adoro lá. Nasci e cresci lá, conheço todo mundo...
- O que houve? Por que você mudou?
- Ah, é uma história complicada...

Rebeca então me contou uma história confusa sobre um namorado da mãe ter ameaçado elas de morte, aquelas histórias que a gente ouve no Datena... Tiveram que se mudar para outro bairro bem mais longe para manter a segurança.

Essas duas histórias (verídicas) servem para ilustrar o que chamo de "bolha da classe média". Veja que dependendo da sua situação sócio econômica uma ou outra dessas histórias pode te soar familiar e sem nada de extravagante, porém pra mim ambas são um tanto surreais. O mesmo consigo perceber quando faço algum post falando sobre custo de vida ou valores de investimentos. Por exemplo, veja o tal comentarista que disse ser feliz vivendo com 3k de renda passiva por mês, um monte de gente chegou detonando e afirmando categoricamente ser impossível o cara viver dignamente e com conforto com "apenas" 3k por mês, enquanto isso nem me liguei que isso poderia causar discórdia, afinal na minha cabeça 3k é uma excelente renda passiva.

Quando ouvi a história da senhorinha que pagava 6k por mês de plano de saúde fiquei me perguntando se realmente tinha ouvido bem, tanto que imediatamente fui pesquisar no Google se aqueles valores eram realistas, descobri que sim. Nunca na minha vida sequer passou pela minha cabeça que um ser humano pagasse SEIS MIL REAIS por mês num plano de saúde! Caralho, é o valor de um carrinho maomenos todo mês! Porém do jeito que ela disse pareceu um valor como outro qualquer. Tudo é questão de perspectiva. Dia desses lembrei dessa história devido a meu post mais atual sobre custo de vida, onde disse pagar 218 conto de plano de saúde (para o casal) e várias pessoas questionaram esse valor, algumas duvidando que podia pagar "tão pouco". Porra, pra mim 218 reais é um absurdo considerando que vivemos num país onde virtualmente o custo de saúde é zero, ainda mais que praticamente não uso. Repito: perspectiva!

Rebeca é uma menina adorável, excelente profissional, sempre sorridente apesar de transparecer certa frieza e dureza perante algumas situações. Ela é feliz mesmo morando numa quebrada com sua mãe solteira, tendo trocentos problemas familiares e ganhando cerca de 1500 reais por mês, o que ela era convicta de ser um "excelente salário". Rebeca não tem carro, não tem moto, seu maior luxo é comer no Outback a cada 2 meses, Rebeca não tem 109 reais pra pagar de plano de saúde e depende do SUS.

Nós da classe média vivemos numa bolha. Achamos que somos as picas das galáxias, muitas vezes julgamos e esnobamos as pessoas mais simples, julgamos os trabalhos braçais (é na classe média que surgiu o nojento termo "sub emprego"), andamos de nariz empinado, nos achamos fodas por ir pra Miami de vez em quando, achamos fracasso o fato de usar transporte público ou mesmo ter um carro com mais de 5 anos de uso (Corey, onde já se viu, você se diz independente financeiramente mas anda com um carro de 22 anos, aff), achamos que "pagar um bom plano de saúde" é fundamental para nossa "saúde" (afinal usar hospital público é o mesmo que assinar o atestado de pobreza, mesmo que o hospitalzinho do plano de saúde seja tão ruim quanto, a demora pra agendar uma consulta seja de meses e exames sejam burocráticos para serem feitos, igualzinho ao SUS - entenda como "saúde" se entupir de antidepressivos e remédios pra dormir pra conseguir encarar o trabalho que te "escraviza" para que você consiga trocar de iBosta, digo, IPhone todo ano), achamos que fazer compra no "Bem Barato" é o fim do mundo e que devemos mesmo é comprar tudo no Pão de Açúcar, comer macarrão Adria nem pensar, tem que ser no mínimo um Barilla (eu mesmo já tive esse pensamento, procure no blog e encontrará).

Ao mesmo tempo que vamos uma vez por ano pra Orlando, comprando passagem de promoção, com 3 escalas e comprada com 1 ano de antecedência pra aproveitar preço (eu mesmo já fiz, faço e farei isso porque avião é somente um meio de transporte, não uma "experiência"), muita gente vai todo mês, voando de executiva comprada em cima da hora e olha pra gente com ar de superioridade: "Aff, esses emergentes que acabaram de tirar o visto americano se acham voltando da Florida com essas blusas pobres da Gap...". Nossa bolhinha muitas vezes não nos deixa olhar para o lado, está mais para uma caixa com paredes foscas que para uma bolha transparente.

Falo da nossa bolha da classe média mas acredito que todo mundo vive numa bolha semelhante. A senhorinha dos 6k da Sulamérica vive na bolha dela, a Rebeca e seu lindo pôr do sol da favela também. Cada um pode e deve ser feliz dentro da sua bolha, mas é imprescindível entender que existe vida fora dessa bolha, é importante entender o ponto de vista, a perspectiva das pessoas e não julga-las por viver numa bolha diferente que a sua.

A experiência de sair da caixinha, deixar de ser empresário e virar peão, convivendo com gente que considera 3k um salário foda me fez crescer muito como ser humano. Acredito que consegui estourar um pouco minha bolha da classe média e entender que tenho coisa pra caralho, muito mais que muita gente sequer sonha. Aprendi a ser mais grato por tudo que tenho, por isso me chateia muito quando alguém condena outrem que vive feliz com 3k. Caralho, você não conhece a pessoa, você não sabe os hábitos e gostos, como você pode saber o que é melhor pra ela? Conviver com pessoas diferentes é engrandecedor, você aprende diariamente, mas pra isso é preciso se colocar no lugar dela, estar aberto para entender diferentes realidades. Recomendo que todos deem um jeito de fazer o mesmo, se expor a um grupo completamente diferente do seu e entenda uma coisa, quanto mais "inferior" é esse grupo, mais você irá aprender.

Isso vai contra à velha história que eu mesmo já preguei muito no blog: "conviva com pessoas superiores a você". Não é bem assim, você tem muito a aprender com pessoas "inferiores", veja que está entre aspas porque não acho que existam pessoas inferiores (até acho, mas isso não tem nada a ver com classe social, assunto pra outro post). É muito bom ver como pessoas de nível econômico menor que o seu conseguem viver muito bem, ainda mais pra gente que busca IF através da frugalidade, percebemos que nossas atitudes "frugais" ou "minimalistas" são muitas vezes somente sobrevivência pra grande parte da população.

Tenho muitas histórias como essas pra compartilhar, no último ano aprendi mais sobre a vida que durante minha vida inteira, espero ter conseguido ao menos despertar sua curiosidade sobre como é a vida fora da bolha. Abraço a todos!

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Mudar de País? Sim, Mas Agora Não

Durante boa parte da existência do blog venho falando de como o Brasil é uma bosta e da minha vontade e planos para emigrar, agora volto aqui e digo que não quero emigrar agora... justo agora que tenho uma situação financeira legal e nenhum vínculo no Brasil que me segure por aqui, afinal vendi minhas lojas e minha família e amigos resume-se a Bia e o cachorro. Controvérsia? Não necessariamente...

Minha opinião sobre o Brasil em nada mudou, continuo achando um péssimo lugar pra se viver e não vou entrar nesses detalhes agora (até porque qualquer pessoa com 2 neurônios consegue perceber isso). Brasil é um lixo, brasileiro é uma praga. Ponto final. Acontece que a minha vida no Brasil não tão ruim, aliás nem posso dizer que é ruim, pelo contrário, vivo uma vida maravilhosa em terras tupiniquins.

Não existe nada físico que me prenda no Brasil, não tenho mais lojas, não tenho apego familiar algum, não tenho amigos, não tenho "um lugar que amo", nada disso; porém a vida não é somente coisas materiais/pessoas, a vida vai além disso... Bia e eu decidimos ficar mais alguns anos no Brasil por alguns motivos:

1- PROFISSIONAL: ano passado após vender as lojas realizei dois trabalhos na minha área de formação (aos recém chegado, reservo o direito de não dar maiores detalhes sobre no que me formei). Um dos trabalhos foi voluntário e o outro temporário (ganhando uma "merreca" (num post futuro falo mais sobre essa "merreca")). Resumo da ópera: aos 30 e tantos anos, quase 10 anos após formado eu pude finalmente trabalhar naquilo que estudei e que gosto, foi uma das experiências mais fantásticas da minha vida! Pra quem a vida inteira trabalhou 100% por dinheiro ter a oportunidade de trabalhar com algo que realmente sente tesão foi sensacional. Conheci um monte de gente nova, aprendi muito (absurdamente muito) todos os dias, me senti feliz por conseguir ajudar pessoas através do meu conhecimento (fico imaginando como deve ser gratificante para profissionais como médicos e mecânicos cujo trabalho é 100% conhecimento em prol de outras pessoas), fiquei muito feliz em receber feed back positivo, etc.

Na minha idade tenho consciência que nem tudo são flores e que não é possível imaginar que um trabalho full time será tranquilo como um voluntário ou temporário. Também sei que pessoas carniças estão aí por todos os lados tentando foder com a vida dos outros, entendo que todos os trabalhos no mundo tem prós e contras, comigo não é diferente. Bom, o lance é o seguinte: quero dar oportunidade a mim mesmo, trabalhar na minha área de formação durante algum tempo, sentir a "brisa" de fazer algo legal novamente. Durante anos da minha vida repeti que trabalho é uma merda e que quem diz ama trabalhar é doente. Continuo concordando em partes, trabalho é sim uma merda quando você não tem realização pessoal alguma com aquilo, mesmo ganhando muito dinheiro. Quem diz amar trabalhar e coloca trabalho na frente de tudo é sim doente, mas quem faz um trabalho com tesão e o tem de maneira saudável encaixado dentro da vida é afortunado.

Tenho 30 e tantos anos, me formei a quase 10 numa uniesquina da vida, tenho praticamente nenhuma experiência profissional, meus possíveis chefes serão todos mais jovens que eu, mesmo assim tenho a oportunidade de ingressar no mercado de trabalho. Sou abençoado por isso e seria um grande desperdício não aproveitar essa oportunidade. Se eu emigrasse agora jogaria essa chance na lata do lixo porque com certeza daqui 5 anos essa oportunidade não mais existirá. Você pode falar: "Ah Corey! Você pode exercer sua profissão em outro país, você pode fazer diferença no mundo e atingir essa brisa em outro lugar, fazendo outra coisa". Sim, é verdade, aliás parcialmente verdade. Nem vou entrar no mérito da questão da equivalência de diploma (coisa extremamente difícil e muitas vezes impossível) mas o fato é um só: a oportunidade que sempre quis está aqui bem na minha frente, por que caralhos jogar isso fora e arriscar em algo trabalhoso e sem certeza de sucesso?

Nada me impede de ficar por aqui, agarrar uma oportunidade profissional bacana e daqui uns anos quando a "brincadeira" perder a graça me mando pra outro lugar. 30 e poucos anos não é idade pra pendurar as chuteiras.

2- PREGUIÇA: sou preguiçoso e minimalista. Durante muito tempo me enganei pensando coisas do tipo: "vou pro Canadá, estudo inglês, faço um college, arrumo um sponsor e me legalizo", ou: "vou pros EUA, abro uma filial da minha empresa brasileira pelo L1, trabalho duro e em 2 anos tenho green card". Bullshit! Sou preguiçoso pra caralho pra encarar um desafio desses. Tiro meu chapéu pra quem o faz, mas não é comigo, não tenho mais saco pra recomeços sofridos. Quando emigrar será de maneira tranquila, sem problemas com documentação nem esforços sobre-humanos, quero ir tranquilo, arrumar um trabalhinho e ficar de boa, sem sofrimento.

O estilo de vida minimalista te faz ter pensamentos minimalistas e práticos. Se quero trabalhar com algo que posso fazer aqui no Brasil por que vou sofrer pra burro pra emigrar e ainda por cima ficar com a cabeça no "ah, eu deveria ter ficado no BR e trabalhado na minha área..." Não faz sentido! Não vou fazer algo somente pra não me contradizer ou pra afirmar que meus planos estavam certos e que sempre estive certo em querer sair do país. Mudo de opinião mesmo, foda-se!

3- VIDA BOA: a verdade é que Bia e eu temos uma vida bem tranquila tanto do ponto de vista financeiro quanto prático. Atingimos a IF, a renda passiva convertida em Euro seria mais que suficiente pra morar em Portugal, por exemplo, mas aí ficaríamos a mercê de câmbio, uma preocupação que não tenho morando aqui no Brasil. Por aqui continuaremos trabalhando e não mexeremos na renda passiva, aliás é até capaz de rolar aporte.

Nossa vida é tranquila, podemos morar numa kitnet que seremos felizes (aliás, mais felizes que nesse apartamento enorme de 60m² que vivemos hoje), nos blindamos da violência e inveja através da prática da camuflagem: andamos de transporte público, temos celulares de 400 reais, carro de 22 anos, nada de roupas da moda, nada de comentar com "amigo" e parente sobre nossas conquistas financeiras... Enfim, passamos batido na multidão, ninguém é capaz de dizer que temos a situação financeira que temos. Veja que esse comportamento não é forçado, ou seja, não fazemos essas coisas buscando a camuflagem e sim o contrário, fazemos porque é assim que gostamos de viver, a camuflagem é efeito colateral, logo não é esforço algum nos mantermos dessa maneira o que nos deixa tranquilos com a situação. É óbvio que acho revoltante você ter que se camuflar de pobre pra não se foder e conseguir sobreviver no Brasil. Penso assim: meu carro de 22 anos me atende muito bem e sou feliz com ele mas se você quer ter uma BMW 2018, tem dinheiro pra isso, consegue mante-la, então tem todo o direito de te-la! Aliás, tem mais que comprar mesmo! Para uma pessoa assim o Brasil já se torna mais hostil, mas pra mim que sou simplão a situação não é tão ruim...

No Brasil você tem que achar alguma maneira de sobreviver. Alguns andam de carro blindado e moram em fortalezas, outros se misturam com os pobres. Ambos os casos são táticas de sobrevivência para ter uma vida boa mesmo vivendo nesse buraco.

4- MARGEM DE ERRO: certa vez ouvi o seguinte: "O Brasil é um bom lugar pra se viver porque aqui você sempre tem uma margem de erro que utilizada para o bem pode deixar sua vida mais fácil". A margem de erro na minha opinião tem a ver com o maldito "jeitinho" porém nesse caso ele não é tão maldito e pode ser utilizado para o bem. Durante anos da minha vida tentei combater o jeitinho e a margem de erro brasileira, o que ganhei com isso? Dois princípios de infarto, gastrite, sobrepeso, dores de cabeça, irritabilidade, revolta e pessimismo. Brother, aqui nessa porra ou você se adapta e usa o jeitinho ao seu favor ou você morre. Simples assim.

A margem de erro brasileira é algo institucional e governamental. Tudo é feito contando com essa margem. Durante todos os anos de empreendedor eu ganhei dinheiro utilizando dessa margem de erro. Seja brechas que o governo deixa, seja coisas "ilegais" mas que todo mundo faz e depois de um tempo nem lembra que não é permitido, "taxas de urgência" que as próprias agências governamentais cobram pra agilizar processos, etc. Antes que venham meter o pau pergunte a si próprio: em quantas placas de PARE você já parou na vida? Nos EUA se você não para num STOP você leva multa e dependendo da situação até vai pra corte... Ascensoristas, cobradores de ônibus e frentistas de posto são profissões realmente necessárias? Não, óbvio que não, mas existem devido ao governo. Vai dizer que o cara que vai trabalhar de frentista está errado em aceitar a vaga? Claro que não! Ele só está aproveitando uma brecha do governo! O mesmo vale pra funcionários públicos que quase na totalidade ganham mais e produzem menos. Estão errados? Claro que não! Mais uma vez estão aproveitando a margem de erro do Brasil. Entendeu onde quero chegar? O Brasil deixa brechas porque sem elas não se vive.

Várias pessoas podem questionar: "Mas Corey, e a situação política? Isso aqui tá uma bagunça". Sempre esteve e sempre estará, estou cagando e andando para o que acontece na política, quem rouba ou deixa de roubar, quem paga propina pra quem, que partido está no poder, etc. É tudo farinha do mesmo saco e uma amostra da população brasileira. Desde que minha vida esteja boa quero que o resto se foda, é egoísmo mesmo mas não vejo porque pensar diferente.

Enfim, resumindo, fico no Brasil mais alguns anos porque sou preguiçoso pra emigrar agora, tenho uma "missão" profissional por aqui e vou continuar aproveitando as facilidades de viver por aqui mas sem nenhuma ilusão que isso aqui vai melhorar.
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