sábado, 16 de novembro de 2019

Empreender em Portugal

Atenção: meu teclado está com problemas e não consigo usar algumas teclas (mesmo no teclado virtual do windows), portanto peço o favor de ignorarem erros, principalmente acentos.

Esse post será longo, leia quando tiver tempo e se houver interesse no assunto.

O Brasil é um lugar hard core pra empreender e ter uma empresa na Europa é muito mais fácil. Será?

Não, não é mais fácil empreender em Portugal, aliás, o Brasil deveria ser considerado um paraíso pelos empreendedores. Nesse post vou falar um pouco sobre isso e expor a MINHA OPINIÃO, ou seja, é tão somente o meu ponto de vista, voce pode discordar.

Em primeiro lugar é preciso deixar claro que minha experiencia como empreendedor é bem raiz, ou seja, penso que uma empresa é onde voce compra por 1 e vende por 2 ou presta algum serviço para outra pessoa. Não incluirei nesse post "empreendimentos nutella" que, brincadeiras a parte, considero negócios digitais, aplicativos e coisas pouco tangíveis para leigos. Reza a lenda que para empreender dessa maneira hi-tech o buraco é mais em baixo, mas sou caipirão e empresa pra mim é onde se vende pão, carne, dipirona, gasolina, cuecas, pintos postiços, bananas, whisky e whiskas.

Ora bem, a treta de empreender no Brasil é realmente coisa para durões: impostos malucos e pouco inteligíveis até para contadores, autorizações e licenças caras, regras pouco transparentes, concorrencia por todos os lados, uma loja similar a sua em cada esquina, dificuldade de achar mão de obra que presta, etc. Empreender em Portugal deve ser bem diferente porque aqui os poucos obstáculos são: impostos malucos e pouco inteligíveis até para contadores, autorizações e licenças caras, regras pouco transparentes, concorrencia por todos os lados, uma loja similar a sua em cada esquina, dificuldade de achar mão de obra que presta... Sim, amigos, aqui existem todos esse problemas e mais alguns, não pense que só porque Portugal é um país desenvolvido que as coisas são muito diferentes do Brasil, aliás, pensando bem, são bem diferente sim, veja algumas dessas diferenças:

1- Mercado consumidor minúsculo. Quem ve de fora as vezes não se da conta de como Portugal é pequeno e vazio, vamos fazer uma rápida comparação entre Portugal e a CIDADE de São Paulo:

PORTUGAL: Território: 92.256 km² ; Poupulação: 10.374.822 habitantes
SÃO PAULO CAPITAL: Território: 1.521 km² ; População: 12.176.866 habitantes
(fonte Wikipedia)

Conclusões: Dentro de Portugal cabem 60 cidades de São Paulo porém São Paulo tem quase 1 milhão a mais de pessoas que Portugal inteiro! O que isso significa? Não há gente suficiente me Portugal para absorver muitos novos empreendimentos, mas isso é o de menos se voce considerar características bem distintas do povo portugues.

2- Mercado consumidor envelhecido. Podem falar o que for, gente velha não consume tanto como novos e tem certa aversão de tecnologias ou novidades. Meu pai nunca chegou perto de um computador e nem usa o ar condicionado do carro talvez por medo de ser engolido, who knows? Se voce andar meia hora por qualquer cidade de Portugal perceberá (comparado com o Brasil) como tem idoso e como é raro ver uma gestante ou mesmo crianças.

Grande parte dos portugueses mais jovens e que estão no auge da idade de trabalho moram em outros países da Europa como França, Luxemburgo, Suíça e Alemanha porque lá o salário é várias vezes maior, são os chamados pejorativamente de "avecs". Isso é outra coisa estranha para brasileiro, não temos esse costume. Durante as férias de verão, de Natal e spring break as cidades são inundadas por Audis, BMWs, Mercedes e VW tops com placas francesas e luxemburguesas com adesivo da seleção portuguesa no vidro traseiro. São os portugueses imigrantes que voltam a Portugal para visitar a família, consertar os dentes e gastar EUR e CHF nas cidades que ficam abarrotadas de gente, com transito, sem vagas no shoppings. Muito fora da realidade brasileira.

Todo o bom gosto dos avecs, perceba a placa francesa

Golfera também é carro de mano em Portugal,
adesivo da seleção e placa suíça, avec starter kit
Ande por qualquer cidade do Brasil e é um festival de choro de criança, casais de vinte e poucos anos loucos pra comer o mais novo sushi de churros com vinagrete de melancia ou comprar fantasias de unicórnio para Enzo e Valentina.
3- Mercado consumidor educado financeiramente. Desde que comecei a trabalhar com portugueses percebi como em geral são bem educados financeiramente, poucos falam em dívidas, desconheço quem use cartão de crédito e quem tenha financiamento de carro mas conheço vários com menos de 30 anos que já possuem um terreno para construir ou algum dinheiro guardado para dar de entrada num apartamento. Esse pessoal usa carros velhos, muitas vezes herdado dos pais ou parentes próximos, compram roupa na Decathlon ou Primark e não é raro ver pessoas com celular de flip. De certo modo lembram muito as pessoas que frequentam a blogosfera de finanças, mas imagine isso num nível nacional. Pessoas assim pensam muito antes de realizar compras, o que desacelera muito a economia e por consequencia, prejudica empreendedores.

Esse mesmo pessoal quando se ve com pouco dinheiro para realizar seus sonhos simplesmente vai trabalhar numa construção na Alemanha e no próximo verão volta de férias no seu VW Scirocco e com o bolso cheio. Pode dar uma despirocada e virar consumista, mas acaba por consumir fora de Portugal.

4- Mercado consumidor pouco a fim de novidades. Aqui vou usar somente exemplos culinários. Brasileiro adora coisas diferentes, por isso o sushi de churros com vinagrete de melancia vende tanto. Paleta mexicana, torresmo de rolo, sorvete de iogurte, enfim, tudo que for comida diferente brasileiro compra. Em Portugal é bem diferente, eles são extremamente caxias com relação a alimentação. 95% dos restaurantes portugueses tem o mesmo cardápio e em todos eles a refeição é composta por sopa, pão, prato quente, sobremesa, café e pra lavar tudo isso, vinho da casa. Isso é ótimo porque come-se bem e muitas vezes chega-se a pagar 5 euros por toda essa combinação acima citada. Quer comer um macarrão? Faz em casa ou vai num restaurante italiano. Quer comer carne? Vai numa churrascaria "brasileira", pagará por Fogo de Chão e comerá como churrasco da laje. Aqui é raríssimo se ver um self-service, por exemplo. Coisas que descolam um pouco da cultura deles é ignorado.

Tenho exemplos aqui onde moro de brasileiros que vieram com sangue no zóio pra montar restaurantes e no fim das contas acabaram apenas atendendo a própria comunidade brasileira o que pode ser um bom negócio mas é pouco sustentável. Ter uma empresa com foco nos consumidores brasileiros pode funcionar no curto prazo mas tenho dúvidas se é sustentável no longo prazo. Brasileiros veem e vão, hoje chegam meia dúzia e outra meia dúzia vai embora, seja pra outra cidade ou voltam para o Brasil. Nesses quase dois anos que estou por aqui vi muito disso: pessoas mudaram pra outras cidades, foram para outros países da UE ou voltaram para o Brasil, portanto mesmo entre os brasileiros é complicado manter clientela.

Outro fator que complica é que no geral brasileiro em Portugal tem pouco dinheiro, os principais perfis são aposentados que vieram com visto D7 e vivem aqui com renda em BRL, como euro a quase 5 por 1 não é difícil entender como é difícil a conta fechar, ainda mais para um pessoal mais velho que possui mais dificuldade de mudar hábitos em prol de economizar dinheiro. Vejo que 90% desses brasileiros não ficará aqui muito tempo. No outro extremo temos a galera jovem que vem como turista e depende de um contrato de trabalho pra se legalizar, no meio de tempo precisam viver com um salário mínimo ou menos que isso já que muitas vezes são explorados. Pessoas com o meu perfil, ou seja, trinta e poucos anos, que tenha documentos, trabalhe e tenha alguma renda no Brasil é raro de se ver, portanto o empreendedor que dependa de brasileiros está em apuros.

5- Poucas coisas são novidades, não foram testadas ou não estão disponíveis. Quando voce está em Portugal tem fácil acesso a produtos de todos os outros países da Europa a preço acessível. Voce consegue comprar queijos franceses e cerveja alemã no mercado da esquina. Consegue manter sem problemas seu Citroen ou Mercedes de 20 anos de uso. Coisas que são novidades no Brasil aqui já existem a tempos. A ideia de negócio que voce tiver na cabeça provavelmente já foi testada por outro brasileiro, se deu certo já está consolidado, senão deu acabou desaparecendo. Esse é o caso dos restaurantes self-service, reza a lenda que uma década atrás começaram a pipocar em todo canto, poucos sobreviveram porque a galera não curtiu.

6- Impostos altos. Se voce pensa que paga muitos impostos no Brasil, pense novamente. A verdade é que se voce for ver na ponta do lápis paga-se talvez até menos que aqui em Portugal, a grande diferença é o retorno que aqui é mil vezes melhor que no Brasil. Empresas aqui pagam impostos pra caralho, ok que aparentemente o sistema tributário é mais simples e parece não haver essas sobreposições de impostos que existem no Brasil, mas paga-se muito. A grande merda no Brasil é a dificuldade de apurar os impostos devido, ninguém sabe se sua empresa está pagando a mais, sonegando ou pior, pagando mais de um imposto e sonegando o outro. Outra coisa que vejo ser extremamente pesado aqui são as multas imputadas a empresas, não é incomum voce ouvir falar de multas de 2k ou mesmo 10k euros!!!

7- Regras complexas e pouco claras. Se tem uma coisa que brasileiro faz bem é empreender no ramo de comida. Dorinete ficou desempregada e vai fazer brigadeiro pra vender, Creusa faz bolos de aniversário magníficos, Creiton vende churrasquinho de gato na porta do estádio de futebol e Marinelson coxinha na grande da fábrica da VW. Se eles fossem tentar isso aqui em Portugal acabariam em cana e com alguns milhares de euros em multas para pagar. Aqui voce precisa ter uma cozinha industrial que siga todas as regras da UE para preparar qualquer alimento para venda, foda-se que a padaria da esquina deixe os pães expostos para as moscas e Ines pegue o pastel de nata com a mesma mão que te deu o troco, se voce quiser vender um bolo de fubá para seu vizinho deverá ter uma cozinha masterchef e 65665 licenças com a prefeitura.

Ok, voce não é um brasileiro de comidas mas a mão treme quando ve uma oportunidade de empreender em serviços. Manicures, cabelereiros, mecanicos, jardineiros e motoboys brasileiros estão entre os melhores do mundo. Graciane cobrava 10 Reais pra fazer unhas no Brasil, chega em Portugal e percebe que suas colegas de profissão portuguesas cobram 10 Euros e ainda arrancam bifes das clientes. Caralho, Graciane pode ganhar mais que médico fazendo unhas " 'a Brasileira" por 15 Euros!!! No Brasil ela era MEI porque achava correto estar legalizada, mas se não fosse trabalharia na mesma sem ninguém encher seu saco, ao chegar em Portugal decidiu ver como deveria fazer para trabalhar certinho.

Graciane foi a Camara Municipal (prefeitura) onde o funcionário a informou que seria necessário "abrir atividade nas finanças" para começar a trabalhar, ela foi nas "Finanças" onde João explicou certinho que ter atividade aberta seria o equivalente do MEI brasileiro e ela poderia pagar seus impostos e contribuição a Segurança Social gozando de todos os benefícios governamentais. Nesse momento João é interrompido por seu colega, Mario, que estava ao lado e ouviu a história toda. Mario disse que para trabalhar como manicure Graciane deveria antes "tirar um curso" de manicure que lhe desse licença para trabalhar. Ok, Graciane chegou em casa e foi pesquisar os tais cursos, encontrou dois em sua cidade: um que demorava 18 meses, custava 2000 euros e daria o título de "manicure" e outro de 3 semanas, 100 euros e daria um diploma de "técnico em manicure". Não entendeu nada e foi ao sindicato das manicures se informar melhor. Lá foi informada detalhadamente por Filomena que para trabalhar como manicure ela deveria na verdade cursar um "mestrado integrado" em Manicuraria com duração de 5 anos. Desolada saiu do sindicato meio perdida, parou no primeiro salão e perguntou a sua colega como ela tinha feito para trabalhar. Jurema que também era brasileira disse que não tinha feito curso algum e que simplesmente trabalhava no salão desde 2010.

Muita gente acha que porque tem atividade aberta e emite "recibos verdes"
está trabalhando de forma legal, mas nem sempre isso pode
ser verdade.

Assim as coisas funcionam em Portugal, há muita informação desencontrada e é comum ter conflitos gritantes dentro da mesma instituição. Se no Brasil voce nunca sabe se está pagando impostos certos, aqui voce muitas vezes não sebe se está trabalhando dentro da lei ou se está sujeito a multas na casa dos milhares de Euros.

8- Barreiras sinistras de entrada e concorrencia estranha. A maioria dos negócios no Brasil podem ser abertos de maneira simples, voce acha um ponto comercial, paga as licenças e algum tempo depois abre sua loja de coxinha de 50 centavos. Aqui parece ser bem diferente. Quer abrir uma farmácia? Deve ser farmaceutico e prestar um concurso público que dirá onde voce pode abrir. Posto de gasolina? Também existe um zoneamento estabelecido pelo governo.

Se não bastasse as barreiras de entrada aqui temos um tipo de concorrencia estranha. Veja o caso das farmácias, o preço dos remédios é o mesmo para todo o país, portanto preço não é um fator de concorrencia. Gasolina é o mesmo preço, 1 centavo a mais ou a menos, exceto nos postos do Jumbo que é 10 centavos mais barato, mas há promoções nas outras redes de postos onde voce consegue economizar 10 centavos, então no frigir dos ovos gasolina é o mesmo preço em qualquer posto. Também não se houve falar em diferença de qualidade entre posto X ou Y. Cafeterias são um tipode comércio muito popular por aqui e voce encontra literalmente uma em cada esquina, as vezes mais de uma por esquina. Até nas aldeias do interior tem mais de um café. Açougue não parece ser um bom negócio afinal os mercados vendem carne de qualidade superior por preços menores, o oposto do que acontece no Brasil. Aqui não existem lanchonetes, parece bizarro, mas é verdade. Se voce quer fazer um lanche rápido precisa se contentar com os salgados borrachudos vendidos no café. Oportunidade de negócio? Tenho minhas dúvidas... será que ninguém nunca tentou? Será que os portugueses aceitariam a ideia de comer um X Tudo com vitamina de abacate?

Engraçado como aqui temos muitas empresas familiares mas em certos ramos essas desapareceram. Voce praticamente não encontra mercadinhos de vila que foram engolidos pelos grandes, movimento que está acontecendo hoje no Brasil.

Isso são coisas favoráveis do ponto de vista do consumidor mas uma merda para o empreendedor.

9- Preconceito. Jamais sofri preconceito direto por ser brasileiro, mas isso não quer dizer que não exista de maneira indireta ou pelas costas. O fato é que muitos dos nossos conterraneos cagam na imagem no brasileiro, seja por serem barulhentos, grosseiros ou mesmo por fazerem picaretagens como pegar empréstimos e fugir do país sem pagar. Isso é algo difícil de medir mas tenho certeza que muito portugues deixa de frequentar um negócio por ser de brasileiro. Se parar pra pensar isso é até natural e nós mesmos devemos inconscientemente fazer isso no Brasil também ao dizer que pastelarias de chineses são sujas ou não entram em lojas de gente com turbante com medo que explodam igual a Mareas.



10- Peculiaridades. Certas coisas são bem diferentes por aqui e podem passar batido ao brasileiro que não olhar com carinho mas são coisas que podem influenciar negativamente o empreendedor.

Aqui é frio. Estamos no outono e hoje está 7 graus e chovendo. Isso invitavelmente inibe as pessoas de baterem perna na rua. Gente que bate perna é gente que gasta dinheiro porque acaba passando na porta de lojas. Quando tinha loja no Brasil sofria muito com semanas de frio e chuva, o movimento caia consideravelmente mesmo para negócios perenes, acontece que isso acontecia poucas semanas no ano, aqui é assim durante a maior parte do tempo.

Aqui é quente. Contraditório porém verdadeiro. No verão nessa terra faz um calor de torra ro cu, fato que assim como o frio e chuva também inibe o vai e vem das pessoas.

Portas fechadas. No Brasil ao andar numa rua comercial voce entra e sai das lojas com facilidade porque afinal de contas as portas estão abertas, existem até sinonimos de empreender relacionados a isso: "fulano abriu as portas do próprio negócio". Aqui devido ao clima extremo as lojas são fechadas, voce sempre tem que abrir uma porta pra entrar. Isso inibe a entrada de gente porque dá trabalho ir numa loja e muitos, como eu, acabam ficando constrangidos de entrar numa loja e não consumir nada. Além disso prejudica a visualização da loja e impede o uso de coisas que atraem pessoas como promoções de ponta de gondola ou mesmo uso de músicas e narradores.

Baixa desigualdade social. Aqui o peão da fábrica ganha 700, o enfermeiro 900, o médico 2000. Embora isso contribua muito para a qualidade de vida, principalmente dos pobres, estrangula o consumo de quem ganha mais porque voce pode chegar a pagar mais de 50% de imposto de renda se ganhar bem. Além disso tem menos gente com renda fora da curva como acontece no Brasil. No Brasil temos uma massa ganhando 2000 mas também temos muita gente ganhando 20.000. Aqui não tem isso.

Todos tem acesso a tudo. O pobre tem acesso a medicamentos gratuitos assim como no Brasil mas aqui ele consegue seu remédio na mesma farmácia que o presidente da república, só não paga por ele. Os filhos do pobre tem acesso a material escolar paga pelo governo através de vouchers que são trocados em qualquer papelaria. O governo também paga por tratamentos dentários dos mais pobres através do mesmo sistema de vouchers. Aqui não tem Pão de Açúcar ou outros mercados premium porque voce compra produtos nobres no Lidl que é low cost. E muito difícil empreender por nicho social como acontece no Brasil onde voce pode ter um mercado popular ou uma lanchonete gourmet.

Brasileiro é descontrolado com dinheiro. Isso é bom por dois motivos. Se seu cliente é descontrolado com dinheiro vai gastar mais, pesquisar menos e aceitar pagar mais caro. Se seu concorrente é descontrolado e voce não ele terá mais chances de quebrar rapidamente deixando mais mercado pra voce. No Brasil é extremamente comum nego misturar PF com PJ, não sei como isso é aqui mas o fato do brasileiro empreender nas coxas é um ponto favorável pra quem tem um pouco de dinheiro, um pouco de planejamento e dinheiro. Não é preciso muito para se sobressair e ter uma empresa mais saudável.

Idioma. voce nasceu no Brasil, logo fala portugues, certo? ERRADO!!! O que voce fala é IDIOMA BRASILEIRO, sim, aqui em Portugal todos dizem que brasileiro fala brasileiro e que esse é um idioma muito parecido com o portugues, por isso nos entendemos bem. Nossa versão do portugues é muito diferente do de Portugal, isso não é um problema para ser entendido porque os portugueses tem muito contato com cultura brasileira e estão acostumados em lidar com gente do mundo inteiro mas o oposto é sim um desafio. Voce não terá problemas para entender Ines que é recepcionista de um hotel em Lisboa, ou Pedro, garçom de uma casa de "francesinhas" no Porto porque eles estão acostumados com turistas e falam de maneira mais pausada, limpa e com poucas gírias. Agora a partir do momento que voce está numa Vilarinho de Samardã da vida, mermão, estará em apuros para entender o que Helder e Dona Conceição estão a falar. Parece mentira, mas a barreira da língua também existe por essas bandas.

Poderia continuar esse post por páginas e páginas mas já ficou demasiado grande. Acredito que agora já é possível entender o porque (desculpe a falta de acento) empreender em Portugal pode ser uma grande furada por mais que pareça fácil. Tudo isso que escrevi também deve se aplicar aos outros países da Europa com agravantes da ainda mais complicada diferença cultural e de idioma. Nem falei de EUA onde todos dizem ser o país das oportunidades (e realmente pode ser) mas passa longe de ser um paraíso para empreendedores já que lá a galera gosta de torrar dinheiro mas a concorrencia é a mais competente do mundo, há muito dinheiro disponível para se investir em qualquer merda, etc.

Brasil é tão bagunçado que faz surgir muitas oportunidades e isso muitas vezes é ignorado por nós, somente é possível ver essas oportunidades de fora, é justamente isso que aconteceu comigo. Hoje vejo como fui um empreendedor de merda durante o tempo que tive loja, só sobrevivi devido ao oba oba da era PT e porque meus concorrentes eram piores que eu. Achava que estava abalando mas na verdade estava surfando nas ineficiencias brasileiras. Tenho certeza absoluta que não sobreveviria e muito menos ganharia dinheiro se tivesse empreendido da mesma maneira em Portugal. No Brasil qualquer Zé Ruela consegue se virar empreendendo, isso é óbvio pra mim hoje, mas nem sempre foi.

Abraço a todos que ficaram até aqui!

P.S. Falei, falei, falei e esqueci de falar sobre a "empresa" da Bia. Ela está tendo sucesso mas sabemos que é algo sazonal e que cai dentro de várias armadilhas acima mencionadas, sem contar que pra ser sustentável a longo prazo toda empresa deve rodar sem necessariamente o dono presente, o que não é o caso dela. Enfim, ela está surfando na onda enquanto existe.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Voltar ao Brasil. O que eu faria diferente?

Atenção: meu teclado está com problemas e não consigo usar algumas teclas (mesmo no teclado virtual do windows), portanto peço o favor de ignorarem erros, principalmente acentos.

Como disse no post anterior as chances de que eu volte ao Brasil em 2020 são muito grandes e mesmo se não for ano que vem esse retorno vai sim acontecer mais cedo ou mais tarde. Não me vejo morando o resto da vida aqui em Portugal. Hoje compartilho com voces as coisas que faria diferente caso voltasse hoje para o Brasil.

1- Daria mais atenção aos meus pais. Sempre tive uma relação complicada com minha mãe e nem tanto com meu pai, saí de casa aos 20 e poucos anos e esses azedumes com a véia continuaram e nunca foram resolvidos dentro de mim. Nesse meio de tempo descobri que meu pai não é o cara legal que eu pensava ser e minha mãe mudou muito se tornando aparentemente uma pessoa melhor. Os anos passaram e eu cada vez me importei menos com eles a ponto de não fazerem falta nenhuma na minha vida (eu sei, é pesado, mas é a verdade) e ter que visita-los ou mesmo ligar para eles se tornar uma tarefa massante que até hoje, me traz muita ansiedade. Mudar pra Portugal talvez foi uma tentativa de fuga disso, coisa que obviamente não deu nem nunca daria certo. Agora os velhos estão cada dia mais velhos e já não conseguem cuidar tão bem um do outro como num passado recente. Como uma vez ouvi Denis Prager dizendo: "voce não tem obrigação de amar seus pais mas tem obrigação de honra-los" e sei que tenho a responsabilidade de cuidar deles de alguma maneira, por mais difícil que essa tarefa seja pra mim sei que devo tomar a responsabilidade dela.

2- Seria menos bitolado com dinheiro. Desde a morte do nosso companheiro de blogosfera Viver de Construção (ok, há debates sobre a veracidade da coisa, mas isso não vem ao caso porque verdade ou não, aquilo pode acontecer com qualquer um) minha consciencia sobre o uso do dinheiro vem mudando. Se antes eu achava que minha função era tomar conta do meu dinheiro hoje vejo que é o contrário. O dinheiro deve tomar conta de mim então tenho até certa obrigação comigo mesmo de gastar na minha qualidade de vida. Isso inclui viver da renda passiva enquanto uma empresa nova se estabiliza, usar essa mesma grana para pagar um curso ou um tratamento de algo que seja necessário, comprar um carro seguro para usar com a família, etc.

3- Empreenderia. A brincadeira de ser empregado foi legal mas já enjoou. Nesses 3 ou 4 anos sem empreender aprendi mais sobre o assunto que durante a mais de uma década que contei caixa e subi porta de enrolar. Posso dizer que minhas ideias de empreendedorismo hoje são anos luz mais evoluídas que quando eu tinha loja. Tenho certeza que com conhecimento que tenho hoje conseguiria ter um bom sucesso empreendendo no Brasil com pensamento no longo prazo (coisa que nunca tive). O assunto é tão extenso que merce um post só pra ele.

4- Focaria no conforto. O Brasil tem problemas e só nos resta contorna-los para ter mais conforto. Se voltasse hoje procuraria alugar um apartamento na "minha quebrada" mas quando comprasse uma loja me mudaria pra perto dela de tal maneira que conseguisse ir ao trabalho a pé ou em poucos minutos de carro. O conforto de morar perto do trabalho é algo importante. Falando em apartamento iria alugar um com boa metragem (uns 70 m²) porque embora Bia e eu consigamos viver em menos espaço, um ape maior proporcionaria mais conforto pra ela tocar o business dela, ter coisas que achamos importante como uma cama grande, sofá confortável, ar condicionado em ao menos um comodo e uma cozinha bacana com bons eletrodomésticos. Aqui entra novamente a questão do emprego de dinheiro: focar em comprar coisas de qualidade e que se adequem a nossa realidade invés de simplesmente comprar o mais barato. Prefiro pagar R$ 1500 num fogão de indução, fácil de limpar que 300 num fogão comum.

5- Carro. Nem 8 nem 80. Já tive carro bom zero km, já andei de usadão com mais de 20 anos. Hoje não faria nenhum nem outro. Compraria um popular completinho, discreto, semi-novo. Acredito que devo focar em segurança e economia, coisas que os carros mais velhos não oferecem. Carro é um mal necessário, mesmo aqui em Portugal sou obrigado a ter carro (2 ainda por cima), ter carro como um Corolla no Brasil é pagar um absurdo pra comprar, pra manter, chamar atenção, gastar muito combustível, ter dificuldade pra estacionar, etc. Enquanto isso um March ou HB20 da vida faz um trabalho muito melhor com custo inferior e ainda te deixa low profile.

6- Lazer e Viagens. Aproveitaria muito mais o tipo de lazer que gosto. Tenho certeza absoluta que em Portugal já fui ao cinema mais vezes que toda minha vida no Brasil. Quando morava no Brasil quase nunca ia ao cinema porque era "caro" (se voce converter BRL por EUR o preço aqui é o mesmo). Conheço mais da Europa e EUA que do Brasil, não conheço praticamente nada do estado de São Paulo além da grande SP, grande Campinas e baixada santista. Argentina e Paraguai estão logo alí e só fui uma vez, não conheço Gramado, Curitiba, Florianópolis, Brasília... Caralho, SP é a cidade da américa latina com mais bares, restaurantes e baladas, muitas vezes de qualidade muito superior a de cidades badaladas como NYC e Paris. Vá numa balada de Las Vegas pagar USD 20 num copo de vodka barata com água com gás e me fala o que achou... Os dias mais felizes que me lembro foram fazendo coisas simples: um sábado de 2007 ou 2008 que Bia e eu caminhamos bastante numa região da cidade, férias que passamos em Santos (foi uma das melhores de nossas vidas), uma "viagem" ao interior de São Paulo em 2006 que foi literalmente paga com moedas que juntamos por meses. Acredito que o Brasil tem muita coisa a oferecer e nós simplesmente ignoramos.

7- Teria um propósito de vida de longo prazo. No momento que Bia e eu decidimos que não teríamos filhos também optamos por abrir mão das coisas boas que a paternidade pode trazer e uma dessas coisas boas é ter um propósito de vida. Quem é pai/mãe tem, ou ao menos deveria ter, seu filho como projeto de vida (por isso acho que criar um filho deve ser um trabalho full-time de um dos pais e que single mom ou single dad é o que está destruindo a humanidade). Nós não temos esse propósito de vida então um dos efeitos colaterais de nossa decisão é ficar meio perdido sem saber o que fazer, então devemos estabelecer um norte para onde seguir. Atualmente vejo esse norte como uma empresa de porte razoável que eu consiga manter por décadas e através dela gerar valor para pessoas a volta, pretendo criar um ambiente de trabalho que retenha boas pessoas e onde elas possam se desenvolver ao mesmo tempo que com o ganho financeiro eu consiga usufruir de uma vida confortável e doar para pessoas e instituições que julgar necessário além de ajudar jovens de dentro da família. Parece um papinho de auto-ajuda, mas realmente acho possível fazer isso. Parafraseando meu amigo Frugal: "Um homem sem vontade não vai resultar em nada"

Antes que alguém sugira nos comentários vou deixar claro que a decisão de não ter filhos foi talvez a única coisa que jamais nos arrependemos de ter feito e que não, não vamos mudar de ideia e que quase 10 anos depois da minha vasectomia as chances de reversão são praticamente zero.

8- Cuidar da saúde. Os quarenta estão batendo na porta e simplesmente não posso mais ser relaxado com a saúde. Primeiramente preciso focar no equilíbrio emocional, durante anos joguei a sujeira dos meus problemas de saúde mental pra baixo do tapete, aqui em Portugal toda essa sujeira acumulada se espalhou como num furacão. Sempre tive alguns problemas do tipo crises de ansiedade ou do panico (eventos onde um stress agudo provocava umas coisas bizarras como uns semi-desmaios, contrações musculares involuntárias, auto-agressão, taquicardia, etc), sempre depois desses episódios, quase todos acompanhados de perto pela Bia, eu me sentia mal pelo ocorrido mas acabava empurrando de barriga. Não dá mais. Tenho que tratar isso porque agora tenho consciencia que não sou um super-homem e que tenho problemas. Considero o fato de já estar tratando a depressão como um excelente começo mas sei que isso será pra vida toda. Preciso manter uma rotina de exercícios físicos aliados com alimentação equilibrada o que pra mim significa comer o que quiser de maneira equilibrada e me exercitar com frequencia. Comer somente peixe e frango e me matar 2 horas por dia 6 dias por semana na academia não é uma opção. Troco uma década de vida por comer o que gosto sem exageros.

9- Aprendizado útil. Sempre fui um cara curioso que gosta de aprender um pouco de tudo mas isso me coloca numa situação onde sei diferenciar um motor ciclo otto de wankel, como fundir alumínio, porque os carros soviético não possuiam limpadores de para brisa e como pousar um avião mas sei pouco sobre contabilidade de empresas, como o software operacional das lojas podem ajudar a baixar a carga tributária ou como fazer marketing digital. Pareço conhecimento de escola que te ensina análise sintática mas não como fritar um ovo ou como lidar com uma pessoa infartando. Preciso buscar conhecimento útil para melhorar a qualidade dos meus investimentos e prosperar uma empresa.

10- Deixar de ter medinho de empréstimos. Meu pai sempre deveu dinheiro pra todo mundo: amigos, família, agiotas, cartões de crédito, bancos, e por isso criei uma total aversão a dívidas. Se isso é muito saudável na pessoa física (e acredito que não mudaria isso), nem tanto na pessoa jurídica. Hoje entendo o conceito de "dívida boa" e aceito utiliza-lo na PJ. No passado fiz negócios extremamente alavancados mas isso me tirava o sono e meu objetivo maior sempre foi pagar empréstimos o mais rápido possível mesmo que isso significasse trabalhar 16 horas por dia a frente do negócio pra economizar com funcionários, deixar de ter bom estoque e estrangular o crescimento da coisa. Poucas empresas, independente do porte, possuem dívida zero. Se por um lado é um prazer quase sexual ir pra casa depois de um dia de trabalho sabendo que não tem um boleto nem parcelas pra pagar, por outro corta a salubridade da empresa, é como ter um V8 com 4 velas pifadas, ele vai andar mas não vai desenvolver toda a potencia possível. Hoje tenho maturidade para administrar uma situação dessas.

11- Deixar de ser 8 ou 80 com tudo. Brasil está ruim a solução é ir morar fora. Sou minimalista, logo não posso ter um carro que presta. Gosto de viajar, tem que ser para o exterior, ficar 30 dias e conhecer 20 cidades. Quero crescer uma empresa, vou trabalhar 16 horas por dia, 7 dias por semana. Isso tudo são coisas que já fiz no passado e que não fazem sentido, sempre fui muito extremista e isso me trouxe mais problemas que solução, sendo que muitas vezes me fodi imensamente. Tenho que ser mais equilibrado em todas as áreas da minha vida.

12- Cagar um pouco no desenvolvimento pessoal. Isso pode parecer heresia na nossa comunidade mas acho que durante os últimos anos foquei demais no "auto desenvolvimento" e o resultado foi uma quebração de cara desenfrada, muita frustração e pouco resultado prático e útil. Isso tem a ver com o que disse sobre buscar conhecimento mais útil e sobre gastar dinheiro com mais consciencia. Não cheguei ao ponto das modinhas como acordar as 5 da manhã (embora reconheça os benefícios de acordar cedo acredito que mais importante é ter sono de qualidade em número de horas suficientes e ser produtivo nas horas que esteja acordado), tomar banho gelado (acho que até faz sentido mas é um desconforto que na minha opinião é idiota), ter dietas malucas (comer o que gosta faz parte da qualidade de vida, jamais me absteria de comida em troca de uma possível melhora de saúde no futuro, o segredo é equilíbrio) e fazer diários (até tentei mas achei chato pra caralho e irrelevante), porém acho que fiquei um pouco bitolado nessa vibe.

13- Não fingir de rico mas também não brincar de pobre. Não sou rico, mas também não sou pobre. Durante anos achei que status é 100% negativo mas a realidade é que em doses moderadas buscar um certo status ajuda na auto-estima, na prosperidade financeira e na qualidade de vida. Vamos ser francos, sabemos que ostentar coisas fora da realidade não fazem sentido e não trazem benefícios no longo prazo, mas ter um carro que presta, se vestir bem (não quero dizer com marcas), morar num lugar bacana, usar um bom perfume e ter uma padrão de vida compatível com seus pares te ajudará muito no dia-a-dia, trará mais conforto e segurança, trará mais confiança de possíveis parceiros de negócios (porque embora não seja racional ninguém quer fazer negócio com um mulambento de carro velho) e no fim das contas melhorará sua vida. No Brasil aparencia importa muito, esse é o jogo, se voce não joga, se foderá. Acredito que é possível ser low-profile e ter certo "status funcional" ao mesmo tempo.

14- Jogar o "jogo Brasil". A imensa maioria dos problemas psicológicos que tive durante os anos de empreendedor no Brasil deve-se a me negar a jogar o "jogo Brasil", ou em bom portugues: tocar o foda-se e fazer o que todo mundo faz mesmo se isso não for 100% certo. Sempre fui muito caxias porque cresci vendo meu pai fazendo coisas, digamos, nao muito certas, como subornar entidades publicas para obter documentos mais rápidos para seus negócios, jeitinhos estranhos e de honestidade duvidosa, etc. Acontece que se não for assim, não é possível viver no Brasil, esse é o modus-operandi da nossa sociedade, está encravado em nossa cultura e ponto final. Andorinha só não faz verão e se tentar vai acabar morrendo, esse é meu caso. Já fiquei com licença vencida na loja por não querer pagar a "propina oficial" conhecida como "taxa emergencial", já esperei tempo desnecessário por coisas que poderiam ter acontecido mais rápido, já paguei um zilhão de Reais de impostos quando todos os meus colegas sonegavam, já discuti com analista de sistemas porque queria meu software mais correto possível (enquanto o resto do Brasil usava uma versão picareta), já confundi cabeça de contador por querer fazer pro-labore acima do salário mínimo, etc. Depois que mudei pra Portugal e percebi que aqui isso não é muito diferente, que portugues deixa dinheiro em contas espalhadas pela Europa pra não pagar imposto, que trabalham " 'a negra" (sem declarar) e fazem altas maracutaias para extorquir os benefícios do governo desencanei que isso é "coisa de brasileiro". Assim caminha a humanidade e não adianta querer ir contra. O problema disso é que a linha entre o jeitinho e a ilegalidade pode ser tenue, mas isso deve ser analisado caso a caso.

15- Ajudar as pessoas. Acho que todos nós podemos e devemos ajudar as pessoas, voce pode não ter condições financeiras de fazer uma doação mas voce pode doar sangue, por exemplo. Doar sangue é algo que praticamente todo mundo pode fazer e poucos fazem. Penso que devo dedicar tempo e dinheiro para caridade e isso tem a ver com o que disse sobre ter uma empresa sólida no longo prazo. Um empresário pode começar a ajudar outros dentro de sua própria empresa com medidas como pagando bem quem merece, estabelecer boas condições de trabalho, ambiente agradável de se trabalhar, um bom pacote de benefícios. Esse é um jogo de ganha-ganha porque funcionário contente trabalha melhor, tem menos rotatividade, enche menos o saco, falta menos, seu cliente fica mais feliz e compra mais. Acho também muito importante não usar caridade para agradar ego, por isso idolatro pessoas que fazem caridade de maneira anonima e não ficam arrotando o que fazem ou deixam de fazer. Esse é o rumo que desejo tomar.

Bom, essas foram 15 coisas que eu faria diferente se voltasse hoje ao Brasil. Acredito que dificilmente enxergaria isso se não tivesse passado por essa experiencia em Portugal, acho que amadureci muito nesses últimos meses e com certeza voltando ao Brasil terei uma vida bem melhor que no passado.


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Planejando 2020

Atenção: meu teclado está com problemas e não consigo usar algumas teclas (mesmo no teclado virtual do windows), portanto peço o favor de ignorarem erros, principalmente acentos.

São 3 da manhã, a insonia me pegou. Ao menos consegui dormir 6h. Daqui a pouco vou trabalhar. Lá fora está 10 graus e um pouco nublado, a previsão para a semana inteira é de chuva e frio, com mínimas de 6 graus na quarta. Esse inverno promete!

2019 tem sido talvez o ano que está passando mais rápido em toda minha vida, também é o ano mais complicado, seja por causa da saúde mental que vai de mal a pior, seja pela constatação que mudar para Portugal não foi nem de longe o que eu esperava. De qualquer maneira 2020 está batendo na porta e alguma coisa deve ser planejada para que seja um ano melhor.

Em dezembro sairei do meu trabalho, em janeiro farei uma viagem aqui pela Europa mesmo. Até fevereiro Bia tem compromissos profissionais, depois disso teremos que tomar uma decisão que tem basicamente duas alternativas:

1- Permanecer em Portugal durante 2020, ela focada no trabalho e eu vagabundando com foco em melhorar a saúde, seja física ou mental. Talvez arranjaria um part-time qualquer para complementar a renda mas meu foco seria desenvolvimento pessoal, manter o peso, melhorar meu ingles e criar vergonha na cara e aprender o básico de italiano.

2- Voltar para o Brasil. Bia tocaria o business dela lá o que mesmo não rendendo tão bem como aqui poderia ser uma maneira de ter grana pra viajar e ela ocupar a cabeça com algo que gosta e dá dinheiro. Eu iria procurar uma loja pra comprar, sem pressa, aproveitar a vantagem que a renda passiva me proporciona. Já deu no saco a brincadeira de ser empregado, foda-se que vou ganhar pouco ou nada no princípio mas acho que voltar a empreender me daria um norte, um objetivo de vida e como estou cheio de ideias novas acredito que teria um sucesso muito bom no longo prazo.

Coisas que já não me atraem mais e são planos abortados:

1- Validar meu diploma aqui em Portugal. Tanta coisa dando errada nesse processo que só pode ser um sinal dos céus para eu cagar pra essa ideia. A verdade é que eu gosto sim de trabalhar na minha área porém aqui em Portugal mesmo com diploma validado e com excelentes condições de trabalho eu continuaria trabalhando de empregado, não há chance de empreender nessa área aqui (aliás empreender como um todo aqui é complicadíssimo, devo um post sobre isso, me cobrem).

2- Ir para uma cidade maior, menos pacata como essa onde vivo. Dobrar as despesas de moradia do dia pra noite e continuar no mesmo marasmo profissional não me parece boa ideia. A principal coisa que gosto em morar aqui é justamente o fato da cidade ser pequena, sem transito, chegar aos locais rapidamente, aluguel barato e bem localizado. Perderia tudo isso indo para o Porto ou Lisboa.

3- Voltar a estudar. A verdade é uma só: não tenho saco nem o mínimo tesão em voltar a estudar, começar a faculdade do zero, etc. Quero continuar estudando coisas que julgo serem importantes pra mim como idiomas e coisas relacionadas aos projetos futuros.

2020 provavelmente será mais um ano de sangria das finanças e zero realizações mas seja qual for o caminho tomado será para me melhorar como pessoa, nunca na vida senti tanta necessidade de cuidar de mim mesmo, seja tirando um sabático pra ficar no quarteto alimentação boa/academia/acompanhamento médico/estudos; seja para voltar ao Brasil e empreender novamente. Obviamente mesmo voltando ao Brasil o foco na saúde continuará, inclusive tenho vontade de caçar o melhor psiquiatra que conseguir arranjar e cuidar dos meus problemas mentais que eu sempre soube que tive, ignorei a vida toda e agora foram exarcebados (me cobrem também um post sobre isso). Também acho que independente se vai acontecer em 2020 ou mais pra frente, o objetivo real mesmo é voltar a empreender.

Quanto ao planejamento financeiro, 2020 será um ano de aportes zero. Tenho uma reserva de € 10k que caso permaneça em Portugal será rapidamente queimada porque pretendemos fazer algumas viagens (embora eu não tenha lá muita vontade de viajar pela Europa mas já que estamos aqui...) e também porque não estarei trabalhando. Provavelmente será necessário usar a renda passiva do Brasil para cobrir parte do rombo. Se voltar ao Brasil usarei minha reserva de mais ou menos R$ 50k para me reestabelecer e queimarei a renda passiva pelo tempo que for necessário até achar uma loja bacana, estabiliza-la para aí sim comçar a tirar um pro-labore.

Ter uma renda passiva legal é fundamental na vida, sem ela não teria coragem de me mudar pra cá, sem ela não me sentiria confortável em sair do meu trabalho ou mesmo voltar e recomeçar do "zero" novamente. Mais um ponto para o que digo sobre a importancia do fluxo de caixa nos investimentos. Se toda minha grana estivesse em empresas de crescimento ou renda fixa com prazo de vencimento longo, não poderia usar a vantagem de ter um bom dinheiro a meu favor. Temos que pensar a IF como uma ferramenta para ser usada diversas vezes na vida e não somente durante a aposentadoria. De nada adianta ter um caminhão de dinheiro pra usar daqui 10, 15, 30 anos, seu dinheiro deve te ajudar durante todas as fases da vida. Coma os ovos e não as galinhas, ou seja, use os dividendos, alugueis e juros e deixe o principal lá. Se houver chance deixe alguns ovos virarem pintinhos mas jamais deixe de comer uma omelete se tiver fome ou mesmo vontade. Falo isso mas reconheço que encontrar esse equilíbrio é difícil pra caralho, cada mes que não reinvisto os dividendo sei que prejudica meu futuro mas ao mesmo tempo sei que posso utiliza-lo que mes que vem terei mais.

Repito: nesses quase dois anos em Portugal aprendi mais sobre eu mesmo que durante os 30 e tal anos anteriores, tem sido uma experiencia tão foda e tão difícil que nem sei se gostaria de passar por isso novamente. A ignorancia as vezes é uma benção e o conhecimento, assustador. Vamos ver o que 2020 nos espera.

Off Topic: li o relato do primeiro ano do Rover nos EUA aqui e fiquei muito contente pelas realizações dele. Esse cara é foda, o blog que mantinha era um dos melhores e recomendo que todos leiam. Não gosto dessas comunidades de "Real" porque na minha opinião boa parte dos frequentadores possui uma visão muito limitada da vida porém não posso negar que assim como igrejas evangélicas acabam por tirar muitos jovens dos pensamentos de merda, mesmo que no fim também fiquem pensando outras merdas (menos fedidas).
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