terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Minha Carteira "Definitiva" de FIIs

Atenção: meu teclado está com problemas e não consigo usar algumas teclas (mesmo no teclado virtual do windows), portanto peço o favor de ignorarem erros, principalmente acentos.

ESSE POST NÃO É UMA SUGESTÃO DE INVESTIMENTO

Hoje venho mostrar minha carteira de Fundos Imobiliários para 2020. 2019 foi o ano de adequar a carteira e durante o próximo ano não pretendo mexer na carteira nem com aportes muito menos com vendas então essa é provavelmente a carteira "definitiva" para o próximo ano. Veja os gráficos e números e mais em baixo conversarei brevemente sobre cada papel.




Bom, é o seguinte, cada um de voces que está lendo esse post deve estar pensando: "Corey deveria ter XYZA11 na carteira" ou "Está muito concentrado em fundo tal", "E um burro por ter fulano", "é um burro por NAO ter ciclano", etc. Cada um de nós temos nossos fundos de estimação e aqueles que odiamos. Minha carteira está sendo construída desde 2012 quando eu tinha pouca ideia do que estava fazendo, fiz besteiras, acertei outras vezes e no fim das contas é isso que consegui. Estou satisfeito com os papéis que tenho e também com a distribuição e concentração deles. Minha carteira é perfeita? Obvio que não! Nenhuma é! Poderia mudar alguma coisa aí de maneira a diminuir o risco e talvez aumentar a rentabilidade? Claro que sim, mas não acho que valha a pena o esforço. Usando o retorno médio dos últimos 12 meses espero que em 2020 essa carteira me renda o seguinte:


8% ao ano é, na minha maneira de ver, extremamente satisfatório dentro do contexto economico que o Brasil vive e dentro do contexto dos próprios FIIs hoje em dia. Estou cagando para a valorização de cotas, muito pelo contrário, essa explosão das cotas que aconteceu esse ano me fodeu porque prejudicou meus aportes. Vejo no YouTube nego falando de boca cheia que comprou KNRI em 2016 e rendeu trocentos porcentos até hoje... bullshit! Eu quero que se foda o rendimento, FII é pra gerar renda passiva não ganho de capital com cotas. Respeito quem faz isso mas na minha opinião o objetivo dessa categoria é gerar renda constante. (o mesmo pensamento tenho para o buy-and-hold raiz, aquele cujo objetivo é nunca vender as ações, bela merda ter coleção de ações se voce não usufrui disso...).

No começo do ano eu estava pensando em deixar a carteira 50/50% entre papel e tijolo porém não fui atraído por muitos fundos de papéis, é tudo mais do mesmo, então para não concentrar ainda mais nos 4 fundos que tenho, decidi aumentar a posição dos de tijolo, a proporção cabou ficando essa daí:

Sei que minha carteira tem umas pimentas meio complicadas de digerir mas assumo ter um risco maior já que não invisto (ainda) em ações. MFII é uma delas assim como NSLU e as bancárias. Durante o ano me livrei de umas bombas tipo XPCM (ontem vi por alto uma notícia positiva sobre o fundo mas nem abri pra ver) e FVBI, se algum dos meus papéis começar a azedar posso fazer a mesma coisa novamente, mas espero que isso não aconteça, como disse, não quero mexer na carteira em 2020. Sei que muita gente não gosta de fundos de hospital e todos os monos mas os tenho em carteira, sendo que a distribuição mono/multi é assim:

Não vou mentir, não tive muito critério pra chegar na distribuição dos papéis, como disse a carteira foi iniciada em 2012 quando não sabia muito o que estava fazendo e durante esses anos acabei fazendo muita coisa na orelhada e boa parte da distribuição se deve a isso. Se fosse hoje com certeza não teria tanto em MFII, mas paciencia, eu ainda tolero o risco dele então fica como está. Em 2019 o que fiz foi tentar equilibrar em partes mais ou menos próximas os diferentes fundos, aproveitei algumas subscrições, vendi o direito de outras e acabei chegando nisso que está. Não estou aqui pra duvidar da capacidade de ninguém, mas como já disse aqui no blog, não acho que todo mundo que investe sabe direito o que está fazendo, são tantas variáveis que é praticamente impossível montar uma carteira "perfeita". Considero como fazer uma cirurgia vendo tutoriais de YouTube.

Agora vamos aos papéis e os porques de estarem na minha carteira (ordem alfabética)

ABCP: gosto dos fundos de shopping, acredito no futuro do segmento no Brasil que é completamente diferente do que acontece nos EUA, por exemplo. Conheço bem esse shopping e acho um dos melhores, nunca teve muita vacancia, é uma muvuca que aglomera pessoas de várias cidades. Comprei um bucadinho pra acompanha-lo.

BBPO: agencias bancárias é complicado mas acho que ainda sobreviverão um bom tempo no Brasil, basta ver as filas que ainda hoje todos os bancos possuem, brasileiro gosta de ir na agencia e engana-se que a galera mais nova mergulhou de cabeça nos app. Pessoal mais humilde ainda usa banco, cash e paga conta na lotérica. Comprei BBPO muitos anos atrás e tem me dado alegria até agora. 

BCFF: primeiro fundo que comprei. Tem gente que não gosta de FoF porque paga duas taxas de administração. Foda-se, enquanto ele me pagar um DY legal pode cobrar o que quiser de mim. Comprei mais esse ano até porque é uma maneira de ter algum ganho de capital dentro dos FIIs sem ter que ficar comprando e vendendo por conta própria, o fundo se encarrega disso. Gosto muito dele.

FAED: um papel que acabei comprando demais numa época que não sabia o que estava fazendo, mas por ser antigo na carteira tem um DY muito bom, portanto, fica aí me pagando. E meu maior DY.

FEXC: não há muito o que falar de fundos de papel. Gosto desse ativo e comprei bastante esse ano, estou contente mas sei que pode sofrer com a queda dos juros.

HGBS: fundão com bons shoppings, gosto do setor, não tem porque não o ter em carteira.

HGLG: o queridinho da galera, todo mundo lambe os zovo dele, mas a verdade é que sim, é um excelente fundo num ótimo setor. Só vejo crescimento na logística brasileira ainda mais com o e-commerce aumentando a cada dia. Comprei bastante em 2019 e estou bem feliz com ele, é um dos preferidos.

KNRI: outro amado, idolatrado, salve, salve. Nunca curti muito esse ativo, sempre achei caro e "de nariz empinado" ainda mais com a tal subscrição exclusiva para correntista Itaú, nojento isso, porém acabei me rendendo e comprando uma merreca pra ver o que acontece. Pior DY da carteira.

MFII: me abarrotei disso aí numa época que ele só subia, DY elevado, subscrições baratas e os carai. Ano passado deu um puta susto com a intervenção da CVM, suspensão da negociação e falta de pagamento durante dois meses. Tive sangue frio e quando tudo normalizou acabei fazendo nada e ainda bem que foi assim. Acho que hoje ele é um fundo robusto e auditado, vamos ver o que acontecerá no futuro. Minha maior posição junto com FEXC e segundo maior DY.

MXRF: idem ao FEXC.

NSLU: pimentinha. Ninguém curte muito fundo de hospital porque é mono-inquilino, imóvel ruim de alugar em caso de vacancia, grande poder de barganha por parque do inquilino, etc. Tudo isso é verdade, mas novamente é um fundo que comprei anos atrás e me dá um bom DY.

RNGO: já tive outros fundos de escritórios e por fim só esse se salvou, tentei colocar outro mas nenhum me interessou então para não comprar e depois vender (como fiz com FVBI, VLOL e EDGA) acabei ficando só com esse.

SAAG: outro banco, como disse no BBPO ainda acredito no setor, comprei uma merreca esse ano.

SDIL: mais logística pra diversificar dentro do setor.

VRTA: idem ao FEXC e MXRF

XPML: mais shopping pra divesificar dentro do setor.

Bom, é isso aí, resolvi divulgar a carteira porque acho legal ver a carteira dos outros, a gente sempre aprende, bora comentar o que acharam. Abraço

sábado, 16 de novembro de 2019

Empreender em Portugal

Atenção: meu teclado está com problemas e não consigo usar algumas teclas (mesmo no teclado virtual do windows), portanto peço o favor de ignorarem erros, principalmente acentos.

Esse post será longo, leia quando tiver tempo e se houver interesse no assunto.

O Brasil é um lugar hard core pra empreender e ter uma empresa na Europa é muito mais fácil. Será?

Não, não é mais fácil empreender em Portugal, aliás, o Brasil deveria ser considerado um paraíso pelos empreendedores. Nesse post vou falar um pouco sobre isso e expor a MINHA OPINIÃO, ou seja, é tão somente o meu ponto de vista, voce pode discordar.

Em primeiro lugar é preciso deixar claro que minha experiencia como empreendedor é bem raiz, ou seja, penso que uma empresa é onde voce compra por 1 e vende por 2 ou presta algum serviço para outra pessoa. Não incluirei nesse post "empreendimentos nutella" que, brincadeiras a parte, considero negócios digitais, aplicativos e coisas pouco tangíveis para leigos. Reza a lenda que para empreender dessa maneira hi-tech o buraco é mais em baixo, mas sou caipirão e empresa pra mim é onde se vende pão, carne, dipirona, gasolina, cuecas, pintos postiços, bananas, whisky e whiskas.

Ora bem, a treta de empreender no Brasil é realmente coisa para durões: impostos malucos e pouco inteligíveis até para contadores, autorizações e licenças caras, regras pouco transparentes, concorrencia por todos os lados, uma loja similar a sua em cada esquina, dificuldade de achar mão de obra que presta, etc. Empreender em Portugal deve ser bem diferente porque aqui os poucos obstáculos são: impostos malucos e pouco inteligíveis até para contadores, autorizações e licenças caras, regras pouco transparentes, concorrencia por todos os lados, uma loja similar a sua em cada esquina, dificuldade de achar mão de obra que presta... Sim, amigos, aqui existem todos esse problemas e mais alguns, não pense que só porque Portugal é um país desenvolvido que as coisas são muito diferentes do Brasil, aliás, pensando bem, são bem diferente sim, veja algumas dessas diferenças:

1- Mercado consumidor minúsculo. Quem ve de fora as vezes não se da conta de como Portugal é pequeno e vazio, vamos fazer uma rápida comparação entre Portugal e a CIDADE de São Paulo:

PORTUGAL: Território: 92.256 km² ; Poupulação: 10.374.822 habitantes
SÃO PAULO CAPITAL: Território: 1.521 km² ; População: 12.176.866 habitantes
(fonte Wikipedia)

Conclusões: Dentro de Portugal cabem 60 cidades de São Paulo porém São Paulo tem quase 1 milhão a mais de pessoas que Portugal inteiro! O que isso significa? Não há gente suficiente me Portugal para absorver muitos novos empreendimentos, mas isso é o de menos se voce considerar características bem distintas do povo portugues.

2- Mercado consumidor envelhecido. Podem falar o que for, gente velha não consume tanto como novos e tem certa aversão de tecnologias ou novidades. Meu pai nunca chegou perto de um computador e nem usa o ar condicionado do carro talvez por medo de ser engolido, who knows? Se voce andar meia hora por qualquer cidade de Portugal perceberá (comparado com o Brasil) como tem idoso e como é raro ver uma gestante ou mesmo crianças.

Grande parte dos portugueses mais jovens e que estão no auge da idade de trabalho moram em outros países da Europa como França, Luxemburgo, Suíça e Alemanha porque lá o salário é várias vezes maior, são os chamados pejorativamente de "avecs". Isso é outra coisa estranha para brasileiro, não temos esse costume. Durante as férias de verão, de Natal e spring break as cidades são inundadas por Audis, BMWs, Mercedes e VW tops com placas francesas e luxemburguesas com adesivo da seleção portuguesa no vidro traseiro. São os portugueses imigrantes que voltam a Portugal para visitar a família, consertar os dentes e gastar EUR e CHF nas cidades que ficam abarrotadas de gente, com transito, sem vagas no shoppings. Muito fora da realidade brasileira.

Todo o bom gosto dos avecs, perceba a placa francesa

Golfera também é carro de mano em Portugal,
adesivo da seleção e placa suíça, avec starter kit
Ande por qualquer cidade do Brasil e é um festival de choro de criança, casais de vinte e poucos anos loucos pra comer o mais novo sushi de churros com vinagrete de melancia ou comprar fantasias de unicórnio para Enzo e Valentina.
3- Mercado consumidor educado financeiramente. Desde que comecei a trabalhar com portugueses percebi como em geral são bem educados financeiramente, poucos falam em dívidas, desconheço quem use cartão de crédito e quem tenha financiamento de carro mas conheço vários com menos de 30 anos que já possuem um terreno para construir ou algum dinheiro guardado para dar de entrada num apartamento. Esse pessoal usa carros velhos, muitas vezes herdado dos pais ou parentes próximos, compram roupa na Decathlon ou Primark e não é raro ver pessoas com celular de flip. De certo modo lembram muito as pessoas que frequentam a blogosfera de finanças, mas imagine isso num nível nacional. Pessoas assim pensam muito antes de realizar compras, o que desacelera muito a economia e por consequencia, prejudica empreendedores.

Esse mesmo pessoal quando se ve com pouco dinheiro para realizar seus sonhos simplesmente vai trabalhar numa construção na Alemanha e no próximo verão volta de férias no seu VW Scirocco e com o bolso cheio. Pode dar uma despirocada e virar consumista, mas acaba por consumir fora de Portugal.

4- Mercado consumidor pouco a fim de novidades. Aqui vou usar somente exemplos culinários. Brasileiro adora coisas diferentes, por isso o sushi de churros com vinagrete de melancia vende tanto. Paleta mexicana, torresmo de rolo, sorvete de iogurte, enfim, tudo que for comida diferente brasileiro compra. Em Portugal é bem diferente, eles são extremamente caxias com relação a alimentação. 95% dos restaurantes portugueses tem o mesmo cardápio e em todos eles a refeição é composta por sopa, pão, prato quente, sobremesa, café e pra lavar tudo isso, vinho da casa. Isso é ótimo porque come-se bem e muitas vezes chega-se a pagar 5 euros por toda essa combinação acima citada. Quer comer um macarrão? Faz em casa ou vai num restaurante italiano. Quer comer carne? Vai numa churrascaria "brasileira", pagará por Fogo de Chão e comerá como churrasco da laje. Aqui é raríssimo se ver um self-service, por exemplo. Coisas que descolam um pouco da cultura deles é ignorado.

Tenho exemplos aqui onde moro de brasileiros que vieram com sangue no zóio pra montar restaurantes e no fim das contas acabaram apenas atendendo a própria comunidade brasileira o que pode ser um bom negócio mas é pouco sustentável. Ter uma empresa com foco nos consumidores brasileiros pode funcionar no curto prazo mas tenho dúvidas se é sustentável no longo prazo. Brasileiros veem e vão, hoje chegam meia dúzia e outra meia dúzia vai embora, seja pra outra cidade ou voltam para o Brasil. Nesses quase dois anos que estou por aqui vi muito disso: pessoas mudaram pra outras cidades, foram para outros países da UE ou voltaram para o Brasil, portanto mesmo entre os brasileiros é complicado manter clientela.

Outro fator que complica é que no geral brasileiro em Portugal tem pouco dinheiro, os principais perfis são aposentados que vieram com visto D7 e vivem aqui com renda em BRL, como euro a quase 5 por 1 não é difícil entender como é difícil a conta fechar, ainda mais para um pessoal mais velho que possui mais dificuldade de mudar hábitos em prol de economizar dinheiro. Vejo que 90% desses brasileiros não ficará aqui muito tempo. No outro extremo temos a galera jovem que vem como turista e depende de um contrato de trabalho pra se legalizar, no meio de tempo precisam viver com um salário mínimo ou menos que isso já que muitas vezes são explorados. Pessoas com o meu perfil, ou seja, trinta e poucos anos, que tenha documentos, trabalhe e tenha alguma renda no Brasil é raro de se ver, portanto o empreendedor que dependa de brasileiros está em apuros.

5- Poucas coisas são novidades, não foram testadas ou não estão disponíveis. Quando voce está em Portugal tem fácil acesso a produtos de todos os outros países da Europa a preço acessível. Voce consegue comprar queijos franceses e cerveja alemã no mercado da esquina. Consegue manter sem problemas seu Citroen ou Mercedes de 20 anos de uso. Coisas que são novidades no Brasil aqui já existem a tempos. A ideia de negócio que voce tiver na cabeça provavelmente já foi testada por outro brasileiro, se deu certo já está consolidado, senão deu acabou desaparecendo. Esse é o caso dos restaurantes self-service, reza a lenda que uma década atrás começaram a pipocar em todo canto, poucos sobreviveram porque a galera não curtiu.

6- Impostos altos. Se voce pensa que paga muitos impostos no Brasil, pense novamente. A verdade é que se voce for ver na ponta do lápis paga-se talvez até menos que aqui em Portugal, a grande diferença é o retorno que aqui é mil vezes melhor que no Brasil. Empresas aqui pagam impostos pra caralho, ok que aparentemente o sistema tributário é mais simples e parece não haver essas sobreposições de impostos que existem no Brasil, mas paga-se muito. A grande merda no Brasil é a dificuldade de apurar os impostos devido, ninguém sabe se sua empresa está pagando a mais, sonegando ou pior, pagando mais de um imposto e sonegando o outro. Outra coisa que vejo ser extremamente pesado aqui são as multas imputadas a empresas, não é incomum voce ouvir falar de multas de 2k ou mesmo 10k euros!!!

7- Regras complexas e pouco claras. Se tem uma coisa que brasileiro faz bem é empreender no ramo de comida. Dorinete ficou desempregada e vai fazer brigadeiro pra vender, Creusa faz bolos de aniversário magníficos, Creiton vende churrasquinho de gato na porta do estádio de futebol e Marinelson coxinha na grande da fábrica da VW. Se eles fossem tentar isso aqui em Portugal acabariam em cana e com alguns milhares de euros em multas para pagar. Aqui voce precisa ter uma cozinha industrial que siga todas as regras da UE para preparar qualquer alimento para venda, foda-se que a padaria da esquina deixe os pães expostos para as moscas e Ines pegue o pastel de nata com a mesma mão que te deu o troco, se voce quiser vender um bolo de fubá para seu vizinho deverá ter uma cozinha masterchef e 65665 licenças com a prefeitura.

Ok, voce não é um brasileiro de comidas mas a mão treme quando ve uma oportunidade de empreender em serviços. Manicures, cabelereiros, mecanicos, jardineiros e motoboys brasileiros estão entre os melhores do mundo. Graciane cobrava 10 Reais pra fazer unhas no Brasil, chega em Portugal e percebe que suas colegas de profissão portuguesas cobram 10 Euros e ainda arrancam bifes das clientes. Caralho, Graciane pode ganhar mais que médico fazendo unhas " 'a Brasileira" por 15 Euros!!! No Brasil ela era MEI porque achava correto estar legalizada, mas se não fosse trabalharia na mesma sem ninguém encher seu saco, ao chegar em Portugal decidiu ver como deveria fazer para trabalhar certinho.

Graciane foi a Camara Municipal (prefeitura) onde o funcionário a informou que seria necessário "abrir atividade nas finanças" para começar a trabalhar, ela foi nas "Finanças" onde João explicou certinho que ter atividade aberta seria o equivalente do MEI brasileiro e ela poderia pagar seus impostos e contribuição a Segurança Social gozando de todos os benefícios governamentais. Nesse momento João é interrompido por seu colega, Mario, que estava ao lado e ouviu a história toda. Mario disse que para trabalhar como manicure Graciane deveria antes "tirar um curso" de manicure que lhe desse licença para trabalhar. Ok, Graciane chegou em casa e foi pesquisar os tais cursos, encontrou dois em sua cidade: um que demorava 18 meses, custava 2000 euros e daria o título de "manicure" e outro de 3 semanas, 100 euros e daria um diploma de "técnico em manicure". Não entendeu nada e foi ao sindicato das manicures se informar melhor. Lá foi informada detalhadamente por Filomena que para trabalhar como manicure ela deveria na verdade cursar um "mestrado integrado" em Manicuraria com duração de 5 anos. Desolada saiu do sindicato meio perdida, parou no primeiro salão e perguntou a sua colega como ela tinha feito para trabalhar. Jurema que também era brasileira disse que não tinha feito curso algum e que simplesmente trabalhava no salão desde 2010.

Muita gente acha que porque tem atividade aberta e emite "recibos verdes"
está trabalhando de forma legal, mas nem sempre isso pode
ser verdade.

Assim as coisas funcionam em Portugal, há muita informação desencontrada e é comum ter conflitos gritantes dentro da mesma instituição. Se no Brasil voce nunca sabe se está pagando impostos certos, aqui voce muitas vezes não sebe se está trabalhando dentro da lei ou se está sujeito a multas na casa dos milhares de Euros.

8- Barreiras sinistras de entrada e concorrencia estranha. A maioria dos negócios no Brasil podem ser abertos de maneira simples, voce acha um ponto comercial, paga as licenças e algum tempo depois abre sua loja de coxinha de 50 centavos. Aqui parece ser bem diferente. Quer abrir uma farmácia? Deve ser farmaceutico e prestar um concurso público que dirá onde voce pode abrir. Posto de gasolina? Também existe um zoneamento estabelecido pelo governo.

Se não bastasse as barreiras de entrada aqui temos um tipo de concorrencia estranha. Veja o caso das farmácias, o preço dos remédios é o mesmo para todo o país, portanto preço não é um fator de concorrencia. Gasolina é o mesmo preço, 1 centavo a mais ou a menos, exceto nos postos do Jumbo que é 10 centavos mais barato, mas há promoções nas outras redes de postos onde voce consegue economizar 10 centavos, então no frigir dos ovos gasolina é o mesmo preço em qualquer posto. Também não se houve falar em diferença de qualidade entre posto X ou Y. Cafeterias são um tipode comércio muito popular por aqui e voce encontra literalmente uma em cada esquina, as vezes mais de uma por esquina. Até nas aldeias do interior tem mais de um café. Açougue não parece ser um bom negócio afinal os mercados vendem carne de qualidade superior por preços menores, o oposto do que acontece no Brasil. Aqui não existem lanchonetes, parece bizarro, mas é verdade. Se voce quer fazer um lanche rápido precisa se contentar com os salgados borrachudos vendidos no café. Oportunidade de negócio? Tenho minhas dúvidas... será que ninguém nunca tentou? Será que os portugueses aceitariam a ideia de comer um X Tudo com vitamina de abacate?

Engraçado como aqui temos muitas empresas familiares mas em certos ramos essas desapareceram. Voce praticamente não encontra mercadinhos de vila que foram engolidos pelos grandes, movimento que está acontecendo hoje no Brasil.

Isso são coisas favoráveis do ponto de vista do consumidor mas uma merda para o empreendedor.

9- Preconceito. Jamais sofri preconceito direto por ser brasileiro, mas isso não quer dizer que não exista de maneira indireta ou pelas costas. O fato é que muitos dos nossos conterraneos cagam na imagem no brasileiro, seja por serem barulhentos, grosseiros ou mesmo por fazerem picaretagens como pegar empréstimos e fugir do país sem pagar. Isso é algo difícil de medir mas tenho certeza que muito portugues deixa de frequentar um negócio por ser de brasileiro. Se parar pra pensar isso é até natural e nós mesmos devemos inconscientemente fazer isso no Brasil também ao dizer que pastelarias de chineses são sujas ou não entram em lojas de gente com turbante com medo que explodam igual a Mareas.



10- Peculiaridades. Certas coisas são bem diferentes por aqui e podem passar batido ao brasileiro que não olhar com carinho mas são coisas que podem influenciar negativamente o empreendedor.

Aqui é frio. Estamos no outono e hoje está 7 graus e chovendo. Isso invitavelmente inibe as pessoas de baterem perna na rua. Gente que bate perna é gente que gasta dinheiro porque acaba passando na porta de lojas. Quando tinha loja no Brasil sofria muito com semanas de frio e chuva, o movimento caia consideravelmente mesmo para negócios perenes, acontece que isso acontecia poucas semanas no ano, aqui é assim durante a maior parte do tempo.

Aqui é quente. Contraditório porém verdadeiro. No verão nessa terra faz um calor de torra ro cu, fato que assim como o frio e chuva também inibe o vai e vem das pessoas.

Portas fechadas. No Brasil ao andar numa rua comercial voce entra e sai das lojas com facilidade porque afinal de contas as portas estão abertas, existem até sinonimos de empreender relacionados a isso: "fulano abriu as portas do próprio negócio". Aqui devido ao clima extremo as lojas são fechadas, voce sempre tem que abrir uma porta pra entrar. Isso inibe a entrada de gente porque dá trabalho ir numa loja e muitos, como eu, acabam ficando constrangidos de entrar numa loja e não consumir nada. Além disso prejudica a visualização da loja e impede o uso de coisas que atraem pessoas como promoções de ponta de gondola ou mesmo uso de músicas e narradores.

Baixa desigualdade social. Aqui o peão da fábrica ganha 700, o enfermeiro 900, o médico 2000. Embora isso contribua muito para a qualidade de vida, principalmente dos pobres, estrangula o consumo de quem ganha mais porque voce pode chegar a pagar mais de 50% de imposto de renda se ganhar bem. Além disso tem menos gente com renda fora da curva como acontece no Brasil. No Brasil temos uma massa ganhando 2000 mas também temos muita gente ganhando 20.000. Aqui não tem isso.

Todos tem acesso a tudo. O pobre tem acesso a medicamentos gratuitos assim como no Brasil mas aqui ele consegue seu remédio na mesma farmácia que o presidente da república, só não paga por ele. Os filhos do pobre tem acesso a material escolar paga pelo governo através de vouchers que são trocados em qualquer papelaria. O governo também paga por tratamentos dentários dos mais pobres através do mesmo sistema de vouchers. Aqui não tem Pão de Açúcar ou outros mercados premium porque voce compra produtos nobres no Lidl que é low cost. E muito difícil empreender por nicho social como acontece no Brasil onde voce pode ter um mercado popular ou uma lanchonete gourmet.

Brasileiro é descontrolado com dinheiro. Isso é bom por dois motivos. Se seu cliente é descontrolado com dinheiro vai gastar mais, pesquisar menos e aceitar pagar mais caro. Se seu concorrente é descontrolado e voce não ele terá mais chances de quebrar rapidamente deixando mais mercado pra voce. No Brasil é extremamente comum nego misturar PF com PJ, não sei como isso é aqui mas o fato do brasileiro empreender nas coxas é um ponto favorável pra quem tem um pouco de dinheiro, um pouco de planejamento e dinheiro. Não é preciso muito para se sobressair e ter uma empresa mais saudável.

Idioma. voce nasceu no Brasil, logo fala portugues, certo? ERRADO!!! O que voce fala é IDIOMA BRASILEIRO, sim, aqui em Portugal todos dizem que brasileiro fala brasileiro e que esse é um idioma muito parecido com o portugues, por isso nos entendemos bem. Nossa versão do portugues é muito diferente do de Portugal, isso não é um problema para ser entendido porque os portugueses tem muito contato com cultura brasileira e estão acostumados em lidar com gente do mundo inteiro mas o oposto é sim um desafio. Voce não terá problemas para entender Ines que é recepcionista de um hotel em Lisboa, ou Pedro, garçom de uma casa de "francesinhas" no Porto porque eles estão acostumados com turistas e falam de maneira mais pausada, limpa e com poucas gírias. Agora a partir do momento que voce está numa Vilarinho de Samardã da vida, mermão, estará em apuros para entender o que Helder e Dona Conceição estão a falar. Parece mentira, mas a barreira da língua também existe por essas bandas.

Poderia continuar esse post por páginas e páginas mas já ficou demasiado grande. Acredito que agora já é possível entender o porque (desculpe a falta de acento) empreender em Portugal pode ser uma grande furada por mais que pareça fácil. Tudo isso que escrevi também deve se aplicar aos outros países da Europa com agravantes da ainda mais complicada diferença cultural e de idioma. Nem falei de EUA onde todos dizem ser o país das oportunidades (e realmente pode ser) mas passa longe de ser um paraíso para empreendedores já que lá a galera gosta de torrar dinheiro mas a concorrencia é a mais competente do mundo, há muito dinheiro disponível para se investir em qualquer merda, etc.

Brasil é tão bagunçado que faz surgir muitas oportunidades e isso muitas vezes é ignorado por nós, somente é possível ver essas oportunidades de fora, é justamente isso que aconteceu comigo. Hoje vejo como fui um empreendedor de merda durante o tempo que tive loja, só sobrevivi devido ao oba oba da era PT e porque meus concorrentes eram piores que eu. Achava que estava abalando mas na verdade estava surfando nas ineficiencias brasileiras. Tenho certeza absoluta que não sobreveviria e muito menos ganharia dinheiro se tivesse empreendido da mesma maneira em Portugal. No Brasil qualquer Zé Ruela consegue se virar empreendendo, isso é óbvio pra mim hoje, mas nem sempre foi.

Abraço a todos que ficaram até aqui!

P.S. Falei, falei, falei e esqueci de falar sobre a "empresa" da Bia. Ela está tendo sucesso mas sabemos que é algo sazonal e que cai dentro de várias armadilhas acima mencionadas, sem contar que pra ser sustentável a longo prazo toda empresa deve rodar sem necessariamente o dono presente, o que não é o caso dela. Enfim, ela está surfando na onda enquanto existe.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Voltar ao Brasil. O que eu faria diferente?

Atenção: meu teclado está com problemas e não consigo usar algumas teclas (mesmo no teclado virtual do windows), portanto peço o favor de ignorarem erros, principalmente acentos.

Como disse no post anterior as chances de que eu volte ao Brasil em 2020 são muito grandes e mesmo se não for ano que vem esse retorno vai sim acontecer mais cedo ou mais tarde. Não me vejo morando o resto da vida aqui em Portugal. Hoje compartilho com voces as coisas que faria diferente caso voltasse hoje para o Brasil.

1- Daria mais atenção aos meus pais. Sempre tive uma relação complicada com minha mãe e nem tanto com meu pai, saí de casa aos 20 e poucos anos e esses azedumes com a véia continuaram e nunca foram resolvidos dentro de mim. Nesse meio de tempo descobri que meu pai não é o cara legal que eu pensava ser e minha mãe mudou muito se tornando aparentemente uma pessoa melhor. Os anos passaram e eu cada vez me importei menos com eles a ponto de não fazerem falta nenhuma na minha vida (eu sei, é pesado, mas é a verdade) e ter que visita-los ou mesmo ligar para eles se tornar uma tarefa massante que até hoje, me traz muita ansiedade. Mudar pra Portugal talvez foi uma tentativa de fuga disso, coisa que obviamente não deu nem nunca daria certo. Agora os velhos estão cada dia mais velhos e já não conseguem cuidar tão bem um do outro como num passado recente. Como uma vez ouvi Denis Prager dizendo: "voce não tem obrigação de amar seus pais mas tem obrigação de honra-los" e sei que tenho a responsabilidade de cuidar deles de alguma maneira, por mais difícil que essa tarefa seja pra mim sei que devo tomar a responsabilidade dela.

2- Seria menos bitolado com dinheiro. Desde a morte do nosso companheiro de blogosfera Viver de Construção (ok, há debates sobre a veracidade da coisa, mas isso não vem ao caso porque verdade ou não, aquilo pode acontecer com qualquer um) minha consciencia sobre o uso do dinheiro vem mudando. Se antes eu achava que minha função era tomar conta do meu dinheiro hoje vejo que é o contrário. O dinheiro deve tomar conta de mim então tenho até certa obrigação comigo mesmo de gastar na minha qualidade de vida. Isso inclui viver da renda passiva enquanto uma empresa nova se estabiliza, usar essa mesma grana para pagar um curso ou um tratamento de algo que seja necessário, comprar um carro seguro para usar com a família, etc.

3- Empreenderia. A brincadeira de ser empregado foi legal mas já enjoou. Nesses 3 ou 4 anos sem empreender aprendi mais sobre o assunto que durante a mais de uma década que contei caixa e subi porta de enrolar. Posso dizer que minhas ideias de empreendedorismo hoje são anos luz mais evoluídas que quando eu tinha loja. Tenho certeza que com conhecimento que tenho hoje conseguiria ter um bom sucesso empreendendo no Brasil com pensamento no longo prazo (coisa que nunca tive). O assunto é tão extenso que merce um post só pra ele.

4- Focaria no conforto. O Brasil tem problemas e só nos resta contorna-los para ter mais conforto. Se voltasse hoje procuraria alugar um apartamento na "minha quebrada" mas quando comprasse uma loja me mudaria pra perto dela de tal maneira que conseguisse ir ao trabalho a pé ou em poucos minutos de carro. O conforto de morar perto do trabalho é algo importante. Falando em apartamento iria alugar um com boa metragem (uns 70 m²) porque embora Bia e eu consigamos viver em menos espaço, um ape maior proporcionaria mais conforto pra ela tocar o business dela, ter coisas que achamos importante como uma cama grande, sofá confortável, ar condicionado em ao menos um comodo e uma cozinha bacana com bons eletrodomésticos. Aqui entra novamente a questão do emprego de dinheiro: focar em comprar coisas de qualidade e que se adequem a nossa realidade invés de simplesmente comprar o mais barato. Prefiro pagar R$ 1500 num fogão de indução, fácil de limpar que 300 num fogão comum.

5- Carro. Nem 8 nem 80. Já tive carro bom zero km, já andei de usadão com mais de 20 anos. Hoje não faria nenhum nem outro. Compraria um popular completinho, discreto, semi-novo. Acredito que devo focar em segurança e economia, coisas que os carros mais velhos não oferecem. Carro é um mal necessário, mesmo aqui em Portugal sou obrigado a ter carro (2 ainda por cima), ter carro como um Corolla no Brasil é pagar um absurdo pra comprar, pra manter, chamar atenção, gastar muito combustível, ter dificuldade pra estacionar, etc. Enquanto isso um March ou HB20 da vida faz um trabalho muito melhor com custo inferior e ainda te deixa low profile.

6- Lazer e Viagens. Aproveitaria muito mais o tipo de lazer que gosto. Tenho certeza absoluta que em Portugal já fui ao cinema mais vezes que toda minha vida no Brasil. Quando morava no Brasil quase nunca ia ao cinema porque era "caro" (se voce converter BRL por EUR o preço aqui é o mesmo). Conheço mais da Europa e EUA que do Brasil, não conheço praticamente nada do estado de São Paulo além da grande SP, grande Campinas e baixada santista. Argentina e Paraguai estão logo alí e só fui uma vez, não conheço Gramado, Curitiba, Florianópolis, Brasília... Caralho, SP é a cidade da américa latina com mais bares, restaurantes e baladas, muitas vezes de qualidade muito superior a de cidades badaladas como NYC e Paris. Vá numa balada de Las Vegas pagar USD 20 num copo de vodka barata com água com gás e me fala o que achou... Os dias mais felizes que me lembro foram fazendo coisas simples: um sábado de 2007 ou 2008 que Bia e eu caminhamos bastante numa região da cidade, férias que passamos em Santos (foi uma das melhores de nossas vidas), uma "viagem" ao interior de São Paulo em 2006 que foi literalmente paga com moedas que juntamos por meses. Acredito que o Brasil tem muita coisa a oferecer e nós simplesmente ignoramos.

7- Teria um propósito de vida de longo prazo. No momento que Bia e eu decidimos que não teríamos filhos também optamos por abrir mão das coisas boas que a paternidade pode trazer e uma dessas coisas boas é ter um propósito de vida. Quem é pai/mãe tem, ou ao menos deveria ter, seu filho como projeto de vida (por isso acho que criar um filho deve ser um trabalho full-time de um dos pais e que single mom ou single dad é o que está destruindo a humanidade). Nós não temos esse propósito de vida então um dos efeitos colaterais de nossa decisão é ficar meio perdido sem saber o que fazer, então devemos estabelecer um norte para onde seguir. Atualmente vejo esse norte como uma empresa de porte razoável que eu consiga manter por décadas e através dela gerar valor para pessoas a volta, pretendo criar um ambiente de trabalho que retenha boas pessoas e onde elas possam se desenvolver ao mesmo tempo que com o ganho financeiro eu consiga usufruir de uma vida confortável e doar para pessoas e instituições que julgar necessário além de ajudar jovens de dentro da família. Parece um papinho de auto-ajuda, mas realmente acho possível fazer isso. Parafraseando meu amigo Frugal: "Um homem sem vontade não vai resultar em nada"

Antes que alguém sugira nos comentários vou deixar claro que a decisão de não ter filhos foi talvez a única coisa que jamais nos arrependemos de ter feito e que não, não vamos mudar de ideia e que quase 10 anos depois da minha vasectomia as chances de reversão são praticamente zero.

8- Cuidar da saúde. Os quarenta estão batendo na porta e simplesmente não posso mais ser relaxado com a saúde. Primeiramente preciso focar no equilíbrio emocional, durante anos joguei a sujeira dos meus problemas de saúde mental pra baixo do tapete, aqui em Portugal toda essa sujeira acumulada se espalhou como num furacão. Sempre tive alguns problemas do tipo crises de ansiedade ou do panico (eventos onde um stress agudo provocava umas coisas bizarras como uns semi-desmaios, contrações musculares involuntárias, auto-agressão, taquicardia, etc), sempre depois desses episódios, quase todos acompanhados de perto pela Bia, eu me sentia mal pelo ocorrido mas acabava empurrando de barriga. Não dá mais. Tenho que tratar isso porque agora tenho consciencia que não sou um super-homem e que tenho problemas. Considero o fato de já estar tratando a depressão como um excelente começo mas sei que isso será pra vida toda. Preciso manter uma rotina de exercícios físicos aliados com alimentação equilibrada o que pra mim significa comer o que quiser de maneira equilibrada e me exercitar com frequencia. Comer somente peixe e frango e me matar 2 horas por dia 6 dias por semana na academia não é uma opção. Troco uma década de vida por comer o que gosto sem exageros.

9- Aprendizado útil. Sempre fui um cara curioso que gosta de aprender um pouco de tudo mas isso me coloca numa situação onde sei diferenciar um motor ciclo otto de wankel, como fundir alumínio, porque os carros soviético não possuiam limpadores de para brisa e como pousar um avião mas sei pouco sobre contabilidade de empresas, como o software operacional das lojas podem ajudar a baixar a carga tributária ou como fazer marketing digital. Pareço conhecimento de escola que te ensina análise sintática mas não como fritar um ovo ou como lidar com uma pessoa infartando. Preciso buscar conhecimento útil para melhorar a qualidade dos meus investimentos e prosperar uma empresa.

10- Deixar de ter medinho de empréstimos. Meu pai sempre deveu dinheiro pra todo mundo: amigos, família, agiotas, cartões de crédito, bancos, e por isso criei uma total aversão a dívidas. Se isso é muito saudável na pessoa física (e acredito que não mudaria isso), nem tanto na pessoa jurídica. Hoje entendo o conceito de "dívida boa" e aceito utiliza-lo na PJ. No passado fiz negócios extremamente alavancados mas isso me tirava o sono e meu objetivo maior sempre foi pagar empréstimos o mais rápido possível mesmo que isso significasse trabalhar 16 horas por dia a frente do negócio pra economizar com funcionários, deixar de ter bom estoque e estrangular o crescimento da coisa. Poucas empresas, independente do porte, possuem dívida zero. Se por um lado é um prazer quase sexual ir pra casa depois de um dia de trabalho sabendo que não tem um boleto nem parcelas pra pagar, por outro corta a salubridade da empresa, é como ter um V8 com 4 velas pifadas, ele vai andar mas não vai desenvolver toda a potencia possível. Hoje tenho maturidade para administrar uma situação dessas.

11- Deixar de ser 8 ou 80 com tudo. Brasil está ruim a solução é ir morar fora. Sou minimalista, logo não posso ter um carro que presta. Gosto de viajar, tem que ser para o exterior, ficar 30 dias e conhecer 20 cidades. Quero crescer uma empresa, vou trabalhar 16 horas por dia, 7 dias por semana. Isso tudo são coisas que já fiz no passado e que não fazem sentido, sempre fui muito extremista e isso me trouxe mais problemas que solução, sendo que muitas vezes me fodi imensamente. Tenho que ser mais equilibrado em todas as áreas da minha vida.

12- Cagar um pouco no desenvolvimento pessoal. Isso pode parecer heresia na nossa comunidade mas acho que durante os últimos anos foquei demais no "auto desenvolvimento" e o resultado foi uma quebração de cara desenfrada, muita frustração e pouco resultado prático e útil. Isso tem a ver com o que disse sobre buscar conhecimento mais útil e sobre gastar dinheiro com mais consciencia. Não cheguei ao ponto das modinhas como acordar as 5 da manhã (embora reconheça os benefícios de acordar cedo acredito que mais importante é ter sono de qualidade em número de horas suficientes e ser produtivo nas horas que esteja acordado), tomar banho gelado (acho que até faz sentido mas é um desconforto que na minha opinião é idiota), ter dietas malucas (comer o que gosta faz parte da qualidade de vida, jamais me absteria de comida em troca de uma possível melhora de saúde no futuro, o segredo é equilíbrio) e fazer diários (até tentei mas achei chato pra caralho e irrelevante), porém acho que fiquei um pouco bitolado nessa vibe.

13- Não fingir de rico mas também não brincar de pobre. Não sou rico, mas também não sou pobre. Durante anos achei que status é 100% negativo mas a realidade é que em doses moderadas buscar um certo status ajuda na auto-estima, na prosperidade financeira e na qualidade de vida. Vamos ser francos, sabemos que ostentar coisas fora da realidade não fazem sentido e não trazem benefícios no longo prazo, mas ter um carro que presta, se vestir bem (não quero dizer com marcas), morar num lugar bacana, usar um bom perfume e ter uma padrão de vida compatível com seus pares te ajudará muito no dia-a-dia, trará mais conforto e segurança, trará mais confiança de possíveis parceiros de negócios (porque embora não seja racional ninguém quer fazer negócio com um mulambento de carro velho) e no fim das contas melhorará sua vida. No Brasil aparencia importa muito, esse é o jogo, se voce não joga, se foderá. Acredito que é possível ser low-profile e ter certo "status funcional" ao mesmo tempo.

14- Jogar o "jogo Brasil". A imensa maioria dos problemas psicológicos que tive durante os anos de empreendedor no Brasil deve-se a me negar a jogar o "jogo Brasil", ou em bom portugues: tocar o foda-se e fazer o que todo mundo faz mesmo se isso não for 100% certo. Sempre fui muito caxias porque cresci vendo meu pai fazendo coisas, digamos, nao muito certas, como subornar entidades publicas para obter documentos mais rápidos para seus negócios, jeitinhos estranhos e de honestidade duvidosa, etc. Acontece que se não for assim, não é possível viver no Brasil, esse é o modus-operandi da nossa sociedade, está encravado em nossa cultura e ponto final. Andorinha só não faz verão e se tentar vai acabar morrendo, esse é meu caso. Já fiquei com licença vencida na loja por não querer pagar a "propina oficial" conhecida como "taxa emergencial", já esperei tempo desnecessário por coisas que poderiam ter acontecido mais rápido, já paguei um zilhão de Reais de impostos quando todos os meus colegas sonegavam, já discuti com analista de sistemas porque queria meu software mais correto possível (enquanto o resto do Brasil usava uma versão picareta), já confundi cabeça de contador por querer fazer pro-labore acima do salário mínimo, etc. Depois que mudei pra Portugal e percebi que aqui isso não é muito diferente, que portugues deixa dinheiro em contas espalhadas pela Europa pra não pagar imposto, que trabalham " 'a negra" (sem declarar) e fazem altas maracutaias para extorquir os benefícios do governo desencanei que isso é "coisa de brasileiro". Assim caminha a humanidade e não adianta querer ir contra. O problema disso é que a linha entre o jeitinho e a ilegalidade pode ser tenue, mas isso deve ser analisado caso a caso.

15- Ajudar as pessoas. Acho que todos nós podemos e devemos ajudar as pessoas, voce pode não ter condições financeiras de fazer uma doação mas voce pode doar sangue, por exemplo. Doar sangue é algo que praticamente todo mundo pode fazer e poucos fazem. Penso que devo dedicar tempo e dinheiro para caridade e isso tem a ver com o que disse sobre ter uma empresa sólida no longo prazo. Um empresário pode começar a ajudar outros dentro de sua própria empresa com medidas como pagando bem quem merece, estabelecer boas condições de trabalho, ambiente agradável de se trabalhar, um bom pacote de benefícios. Esse é um jogo de ganha-ganha porque funcionário contente trabalha melhor, tem menos rotatividade, enche menos o saco, falta menos, seu cliente fica mais feliz e compra mais. Acho também muito importante não usar caridade para agradar ego, por isso idolatro pessoas que fazem caridade de maneira anonima e não ficam arrotando o que fazem ou deixam de fazer. Esse é o rumo que desejo tomar.

Bom, essas foram 15 coisas que eu faria diferente se voltasse hoje ao Brasil. Acredito que dificilmente enxergaria isso se não tivesse passado por essa experiencia em Portugal, acho que amadureci muito nesses últimos meses e com certeza voltando ao Brasil terei uma vida bem melhor que no passado.


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Planejando 2020

Atenção: meu teclado está com problemas e não consigo usar algumas teclas (mesmo no teclado virtual do windows), portanto peço o favor de ignorarem erros, principalmente acentos.

São 3 da manhã, a insonia me pegou. Ao menos consegui dormir 6h. Daqui a pouco vou trabalhar. Lá fora está 10 graus e um pouco nublado, a previsão para a semana inteira é de chuva e frio, com mínimas de 6 graus na quarta. Esse inverno promete!

2019 tem sido talvez o ano que está passando mais rápido em toda minha vida, também é o ano mais complicado, seja por causa da saúde mental que vai de mal a pior, seja pela constatação que mudar para Portugal não foi nem de longe o que eu esperava. De qualquer maneira 2020 está batendo na porta e alguma coisa deve ser planejada para que seja um ano melhor.

Em dezembro sairei do meu trabalho, em janeiro farei uma viagem aqui pela Europa mesmo. Até fevereiro Bia tem compromissos profissionais, depois disso teremos que tomar uma decisão que tem basicamente duas alternativas:

1- Permanecer em Portugal durante 2020, ela focada no trabalho e eu vagabundando com foco em melhorar a saúde, seja física ou mental. Talvez arranjaria um part-time qualquer para complementar a renda mas meu foco seria desenvolvimento pessoal, manter o peso, melhorar meu ingles e criar vergonha na cara e aprender o básico de italiano.

2- Voltar para o Brasil. Bia tocaria o business dela lá o que mesmo não rendendo tão bem como aqui poderia ser uma maneira de ter grana pra viajar e ela ocupar a cabeça com algo que gosta e dá dinheiro. Eu iria procurar uma loja pra comprar, sem pressa, aproveitar a vantagem que a renda passiva me proporciona. Já deu no saco a brincadeira de ser empregado, foda-se que vou ganhar pouco ou nada no princípio mas acho que voltar a empreender me daria um norte, um objetivo de vida e como estou cheio de ideias novas acredito que teria um sucesso muito bom no longo prazo.

Coisas que já não me atraem mais e são planos abortados:

1- Validar meu diploma aqui em Portugal. Tanta coisa dando errada nesse processo que só pode ser um sinal dos céus para eu cagar pra essa ideia. A verdade é que eu gosto sim de trabalhar na minha área porém aqui em Portugal mesmo com diploma validado e com excelentes condições de trabalho eu continuaria trabalhando de empregado, não há chance de empreender nessa área aqui (aliás empreender como um todo aqui é complicadíssimo, devo um post sobre isso, me cobrem).

2- Ir para uma cidade maior, menos pacata como essa onde vivo. Dobrar as despesas de moradia do dia pra noite e continuar no mesmo marasmo profissional não me parece boa ideia. A principal coisa que gosto em morar aqui é justamente o fato da cidade ser pequena, sem transito, chegar aos locais rapidamente, aluguel barato e bem localizado. Perderia tudo isso indo para o Porto ou Lisboa.

3- Voltar a estudar. A verdade é uma só: não tenho saco nem o mínimo tesão em voltar a estudar, começar a faculdade do zero, etc. Quero continuar estudando coisas que julgo serem importantes pra mim como idiomas e coisas relacionadas aos projetos futuros.

2020 provavelmente será mais um ano de sangria das finanças e zero realizações mas seja qual for o caminho tomado será para me melhorar como pessoa, nunca na vida senti tanta necessidade de cuidar de mim mesmo, seja tirando um sabático pra ficar no quarteto alimentação boa/academia/acompanhamento médico/estudos; seja para voltar ao Brasil e empreender novamente. Obviamente mesmo voltando ao Brasil o foco na saúde continuará, inclusive tenho vontade de caçar o melhor psiquiatra que conseguir arranjar e cuidar dos meus problemas mentais que eu sempre soube que tive, ignorei a vida toda e agora foram exarcebados (me cobrem também um post sobre isso). Também acho que independente se vai acontecer em 2020 ou mais pra frente, o objetivo real mesmo é voltar a empreender.

Quanto ao planejamento financeiro, 2020 será um ano de aportes zero. Tenho uma reserva de € 10k que caso permaneça em Portugal será rapidamente queimada porque pretendemos fazer algumas viagens (embora eu não tenha lá muita vontade de viajar pela Europa mas já que estamos aqui...) e também porque não estarei trabalhando. Provavelmente será necessário usar a renda passiva do Brasil para cobrir parte do rombo. Se voltar ao Brasil usarei minha reserva de mais ou menos R$ 50k para me reestabelecer e queimarei a renda passiva pelo tempo que for necessário até achar uma loja bacana, estabiliza-la para aí sim comçar a tirar um pro-labore.

Ter uma renda passiva legal é fundamental na vida, sem ela não teria coragem de me mudar pra cá, sem ela não me sentiria confortável em sair do meu trabalho ou mesmo voltar e recomeçar do "zero" novamente. Mais um ponto para o que digo sobre a importancia do fluxo de caixa nos investimentos. Se toda minha grana estivesse em empresas de crescimento ou renda fixa com prazo de vencimento longo, não poderia usar a vantagem de ter um bom dinheiro a meu favor. Temos que pensar a IF como uma ferramenta para ser usada diversas vezes na vida e não somente durante a aposentadoria. De nada adianta ter um caminhão de dinheiro pra usar daqui 10, 15, 30 anos, seu dinheiro deve te ajudar durante todas as fases da vida. Coma os ovos e não as galinhas, ou seja, use os dividendos, alugueis e juros e deixe o principal lá. Se houver chance deixe alguns ovos virarem pintinhos mas jamais deixe de comer uma omelete se tiver fome ou mesmo vontade. Falo isso mas reconheço que encontrar esse equilíbrio é difícil pra caralho, cada mes que não reinvisto os dividendo sei que prejudica meu futuro mas ao mesmo tempo sei que posso utiliza-lo que mes que vem terei mais.

Repito: nesses quase dois anos em Portugal aprendi mais sobre eu mesmo que durante os 30 e tal anos anteriores, tem sido uma experiencia tão foda e tão difícil que nem sei se gostaria de passar por isso novamente. A ignorancia as vezes é uma benção e o conhecimento, assustador. Vamos ver o que 2020 nos espera.

Off Topic: li o relato do primeiro ano do Rover nos EUA aqui e fiquei muito contente pelas realizações dele. Esse cara é foda, o blog que mantinha era um dos melhores e recomendo que todos leiam. Não gosto dessas comunidades de "Real" porque na minha opinião boa parte dos frequentadores possui uma visão muito limitada da vida porém não posso negar que assim como igrejas evangélicas acabam por tirar muitos jovens dos pensamentos de merda, mesmo que no fim também fiquem pensando outras merdas (menos fedidas).

sábado, 12 de outubro de 2019

A Treta Com o Chefe

Ontem briguei com meu chefe. Não foi uma briga física, mas uma discussão acalorada e isso me fez muito mal e talvez também muito bem. Cresci vendo meu pai discutindo com tudo e com todos, ele é uma pessoa bem pavio curto, mal educada mesmo, daqueles caras que brigam no trânsito mesmo quando estão errado, arranjam encrencas desnecessarias em lugares como supermercados e farmácias. Durante muito tempo também fui idiota assim, até a ficha cair e ver que me estressar por qualquer coisa é perda de tempo e saúde, aos pouco fui mudando e hoje em dia engulo sapos todos os dias mas não me estresso por qualquer coisa. Ontem, porém, foi uma das raras situações onde meu sangue italiano encrenqueiro transbordou a razão.

Basicamente o motivo da treta foi a exigência de fazer trabalho impossível de ser feito no tempo disponível, eu já estava puto com a situação e fui engolindo aquilo até que houve um gatilho e estourei, bati boca feio com o gajo, e a partir da hora que isso acontece todos perdem a razão. Por fim o trabalho não ficou feito e não foi somente culpa minha, toda a equipe não teve tempo para finalizar o planeado, eu estava certo, havia muito trabalho pra pouca gente. Isso aconteceu porque o chefe do chefe é um escroto e meu chefe não sabe dizer não.

Ok, essas coisas fazem parte e de uma maneira ou de outra tretas no trabalho são coisas comuns, segunda feira vai estar tudo bem novamente e outras tretas possivelmente surgirão durante a semana. Acontece que estou extremamente mal pelo acontecido e isso não tem nada a ver com o trabalho em si e sim comigo mesmo.

Quem acompanha o blog sabe que venho tendo sérios problemas de adaptação em Portugal, que estou sendo tratado com antidepressivos e que as coisas estão longe do que o imaginado do lado de cá do Atlântico. Nos últimos dias estou até que bem, animado, fazendo minhas caminhadas, lendo, mais desencanado com o futuro e tal... Decidi sair do trabalho no fim do ano, tanto que já até comprei tickets da CPTM Ryanair para janeiro, não coloquei nada no papel mas basicamente a ideia é dedicar 2020 à minha saúde, ajudar a Bia no negócio dela, que paga praticamente todas nossas contas, e depois deixar a vida levar pro lado que for. Esse continua sendo o plano para 2020.

Após a treta de ontem fiquei pensativo sobre o rumo que minha vida levou. Puta que pariu, cheguei ao ponto de ter brigas de peão por motivo que sempre aconteceu e sempre acontecerá. O problema não é ser peão ou doutor, continuo 100% convicto que trabalho é tudo igual, o xis da questão é pensar no que já fiz na vida, sobre tudo que já passei e onde estou agora. Caralho, quem disser que um downgrade profissional não abala está mentindo, com toda certeza! Já fui empresário, já trabalhei e fui respeitado na minha área de formação, já ajudei muita gente através do meu trabalho e hoje estou batendo boca em chão de fábrica. Admiro quem não se abala com esse tipo de coisa, mas eu sou de carne e osso e fico abalado sim, ainda mais na situação que minha cabeça se encontra. Se você pensa que vai sair do Brasil e ser feliz trabalhando em "qualquer coisa", pense novamente.

Se no fundo do poço da minha depressão, onde cheguei a pensar umas merdas sinistras eu achava que a solução dos meus problemas seria voltar para o Brasil e arranjar de volta um emprego na minha área agora já não penso bem assim. Preciso me tocar que tenho uma boa estrutura financeira e usar isso a meu favor, provavelmente voltarei para o Brasil (não sei quando), mas a opção de arrumar um trampo na minha área e tentar tocar uma carreira a partir daí já é um plano B, o plano A é de alguma maneira empreender em algo que não me encha tanto o saco, ocupe minha mente e pague minhas contas. Tenho ajudado a Bia no negócio dela aqui em Portugal e também um amigo que está empreendendo no Brasil e possivelmente entrarei de investidor num outro negócio e isso tudo me dá tesão. A treta com o chefe serviu para me mostrar que talvez eu não tenha tanto saco de ser empregado como um dia eu pensei.

Porra, tenho uma boa renda passiva, alguns meses ou mesmo anos que consumi-la não vão me matar, as vezes fico na paranóia do poder dos juros compostos e pensando que um mês sem reinvestir os dividendos vão foder com tudo e acabo deixando de viver a vida e usufruir do que construi. Ultimamente vejo uma tendência entre os influenciadores de finanças (principalmente no YouTube que é a principal ferramenta atual) em supervalorizar a hiperprodutividade através das modinhas de acordar às 5 da manhã e minimalismo estremo, de contemplar a frugalidade mesmo quando já se tem uma condição financeira legal e acabo me deixando levar por isso. Isso está errado, nós que já atingimos uma boa estabilidade financeira devemos buscar o equilíbrio e usar parte dessa renda pra facilitar a vida e talvez essa seja a mudança de mindset mais difícil de fazer. Me recuso à ficar tretando em chão de fábrica e também me recuso a ficar num país só porque me oferece segurança, vou usar as ferramentas que tenho, entre elas o dinheiro, pra buscar tranquilidade seja onde for.

Engraçado que agora eu fico aqui, nesse sábado ensolarado de outono, chateado por ter mais uma vez explodido e ter fugido do objetivo de ser uma pessoa de boa e diferente do modelo que meu pai foi, mas ao mesmo tempo tenho certeza que essa treta serviu para me abrir mais ainda os olhos para o que realmente é importante pra mim. Portugal tem sido a melhor escola de vida que eu poderia encontrar.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Chilique Nosso de Cada Dia

Disclaimer: não sou analista de investimento, não tenho sequer conhecimento médio sobre política e economia, sou somente um Zé Ninguém falando merda na internet, portanto leve esse post somente como uma opinião e não como tentativas de empurrar a "verdade", ok?

Os dividendos serão tributados e isso será o armagedom dos investimentos brasileiros, vamos todos guardar dinheiro na renda fixa porque não vai compensar o risco de investir em ativos de renda variável que terão yield reduzidos drasticamente do dia para a noite.

Tenho visto muita gente desesperada com a tributação dos dividendos, provavelmente as mesmas pessoas que adotam outras modinhas da vez como tomar banho gelado e acordar às 5 da manhã além, é claro, de comprar ouro e falar sobre estoicismo.

Engraçado que se você já estudou alguma coisa sobre estoicismo deveria ser o primeiro a cagar pra essa treta da tributação dos dividendos. Se você ler meia página de qualquer matéria que trate sobre o assunto tributação de dividendos verá que esse assunto não é novidade, já foi proposto zilhões de vezes no passado, verá que o Brasil é um dos poucos países que não tributa dividendos, verá que o governo está dando tiro para todos os lados em busca de aumentar a arrecadação, o fantasma da CPMF está aí também assombrando a todos (acredito que grande parte da galera que frequenta aqui ainda se lembra dela), etc. O que você, Pacato Cidadão da Silva, pode fazer para controlar isso? PORRA NENHUMA!!! Isso aí amiguinho, você não tem controle sobre absolutamente nada disso, então por que caralhos fica bravinho? Ligue o foda-se e faça aquilo que está ao seu alcance.

Ah, Corey, mas evitar investir em ativos que possam ser tributados está ao meu alcance. Será que isso é certo? Se os dividendos de ações e FIIs forem tributados obviamente o yield deles cairão, logo deixarão de ser interessantes e é melhor investir em outro lugar. Onde? Na renda fixa com juros decrescentes e que em breve deve chegar aos 5% o que se traduz em uma rentabilidade de 0,40% menos IR num TD Selic ou CDB 100%? Você acha que as ações e FIIs deixarão de ser interessantes devido à tributação? Acho que não.

Veja bem, sou um cara cagão pra caralho, que deixou de ganhar rios de dinheiro por ficar fora da renda variável simplesmente por não achar que tinha expertise o suficiente para entrar. Sou um Average Joe que mesmo tendo ganhado a vida como empreendedor, não consegue entender direito a complexidade envolvida em análise de balanços de empresas e isso sempre me afastou da bolsa. Mesmo eu, cagão que sou, sei que agora não dá mais pra se manter fora da renda variável e sei também que se você não quer jogar no nível hard brasileiro com sua total imprevisibilidade, deverá estudar maneiras de investir no exterior. É esse o caminho que estou seguindo. Quando os dividendos forem tributados (e digo QUANDO e não SE forem tributados) vou ficar puto da vida porque o governo como sempre jogará uma Scania de merda nas nossas cabeças porém a vida seguirá, com retorno inferior mas seguirá.

Pessoal, vamos deixar de ter Síndrome de Pitbull e achar que somos fodões, pontos fora da curva e que porque lemos A Bola de Neve somos capazes de superar o mercado, analisar relatórios com perfeição sendo que a maioria de nós nem consegue interpretar uma receita de bolo de fubá. Eu devo ser muito burro mesmo porque vejo analistas de internet o tempo todo discutindo sobre números de relatórios, como se fosse a coisa mais fácil do mundo para se interpretar. Acho que para Zé Ruela como eu e você se dar bem no mundo dos investimentos o caminho é um só: constância, cagar pra coisas intangíveis como valuation e coisas do tipo "se eu tivesse investido 5k em Magazine Luíza no passado hoje seria milionário", se achar viável pagar algum tipo acessoria ou casa de research para auxiliar o processo, não tentar reinventar a roda (já me fodi muito na vida por tentar saídas mirabolantes) e ver as notícias ruins de maneira racional.

Uma coisa importante é aprender com caras tipo Barsi e Buffett mas sem jamais esquecer que eles criaram fortuna numa época pré-internet onde informação era escassa e havia poucos players. Não me conformo quando nêgo que tem 50k de ações quer seguir estratégia de valuation porque o Buffett o faz. Caralho, o Buffett comprava 1 dólar por 50 cents quando não havia site informação ao investidor e as informações tinham que ser garimpadas e mesmo o Buffett parece estar um pouco perdido, vide o tamanho do caixa da Berkshire Hathaway e investidores azedos devido à isso. Brother, valuation não faz muito sentido, aportar com frequência faz. Obviamente que se você conseguir comprar mais barato, vai ajudar, mas ficar esperando fundos é burrice, cague nisso e siga a vida. Pare de querer fazer aquilo que poucos conseguem fazer e siga o caminho da média, você provavelmente terá retornos medianos o que já é muito bom.

Por hoje é isso, compartilhem suas opiniões sobre os chiliques da internet e sobre a treta da tributação dos dividendos. Grande abraço!

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Fundos Imobiliários - Agosto/2019

Hoje venho aqui rapidinho compartilhar minha carteira atual de FIIs e propor algumas reflexões além de pedir algumas sugestões. Vamos lá!

Atualmente minha carteira de FIIs está assim distribuída:

Nos últimos tempos venho aportando mais em fundos de papel com objetivo de chegar à um percentual 50/50%. Fundos de papel me atraem mais nesse momento devido à diversificação. Além disso me desfiz de algumas carniças que tinha na carteira, como por exemplo FVBI e XPMC, não gosto de ficar movimentando a carteira mas também não vou ficar sentado em cima de ativos que não gosto mais. Ainda tenho alguns ativos mono-imóvel ou mono-inquilino, como o NSLU que me incomodam um pouco, mas nesse caso específico fico com dózinha de vender porque me deixa um yield 0,76% (muito próximo ao retorno total carteira que foi de 0,75% em agosto). Também fiz uma possível cagada de comprar SAAG (tenho dúvidas de como o setor se comportará), mas como a parcela é pequena, tá de boa.

Tenho somente 4 fundos de papel e gostaria de acrescentar mais algum, o que sugerem? A relação papel/tijolo e distribuição dos fundos de papel está assim:

A distribuição dos setores dos fundo de tijolo estão conforme o gráfico abaixo e estou meio perdido, não sei direito pra qual lado ir depois que chegar à proporção 50/50% quando terei que aportar em tijolo novamente. O objetivo é diminuir cada vez mais a participação do setor de desenvolvimento (MFII) além de diluir os outros setores que estão quase todos com um ou dois papéis apenas. Sugestões?


Venho entrado em novas ofertas sempre que possível e isso tem ajudado a baixar meus PMs que estão assim:


Entretanto essas mesmas ofertas que ajudam a baixar meu preço médio estão começando a me incomodar. Todo mundo quer lançar novas ofertas, levantar um caminhão de dinheiro, além disso há novos fundos de papel surgindo todos os dias. Ok, o mercado brasileiro de FIIs tem muito o que crescer e a atual queda dos juros empurra investidores para esses ativos, mas será que com a economia andando de lado há onde investir tanta grana que está sendo colocada nessa modalidade e gerar renda decente no fim das contas? Começo à ficar preocupado... O que acham?

No meu atual momento, dentro dos planos atuais (que estou devendo de compartilhar com vocês), fluxo de caixa periódico é cada vez mais importante e isso tem me levado à aumentar substancialmente minha carteira de FIIs. Tenho alguns CDBs vencendo a partir de janeiro e pretendo finalmente alocar em ações com foco em dividendos além de BDRs com foco em proteção, o objetivo é deixar em renda fixa somente uma reserva de oportunidade e dentro desse âmbito estou pensando em me desfazer dos títulos públicos...

Dentro do preço atual meus TDs estão me pagando cupons na ordem de 0,36% ao mês (...lágrimas...), pensei em vende-los, alocar em FIIs o suficiente para ter renda equivalente ao que os títulos me pagam atualmente e o que sobrar colocar em algum papel do setor elétrico, até para já ir testando meu sentimento em relação às ações. 

É isso por hoje, agradeço as sugestões e incentivo as discussões saudáveis. Na medida do possível vou responder a todos.

Grande abraço e boa semana!

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Não Pulei da Ponte

Bom dia, boa tarde, boa noite à todos, como estão? Antes de mais nada gostaria de agradecer por todas as mensagens no último post, meus leitores são fodas, fico muito contente por poder contar com vocês que me aconselharam, compartilharam suas experiências e me ajudaram na fase complicada onde estava metido. Muito obrigado mesmo, do fundo do coração! Estou aqui, não pulei da ponte Vasco da Gama.



Hoje vim aqui pra atualizar a situação, contar como as coisas correram nesses últimos dois meses desde que vim aqui todo fudido e deprimido. Na verdade não aconteceu nada de diferente, porém parece que as coisas vão se ajeitando na minha cabeça. Desde que comecei a tomar anti-depressivo me sinto bem melhor, parece que consigo pensar com um pouco mais de clareza e racionalidade, outra coisa que tem me ajudado muito são as longas caminhadas que tenho feito aqui na cidade, parece que sair andando ouvindo música ou algum vídeo (salvo em MP3 o áudio de alguns vídeos que tenho interesse e depois ouço no carro ou durante as caminhadas) me ajuda muito a colocar as ideias no lugar. Estou melhor mas longe de estar bem, grande parte do que estava sentindo na altura que escrevi aquele post ainda acontece porém em menor escala e talvez de maneira mais controlável. Não tive mais crises de ansiedade nem dores sinistras na cabeça, também (graças a Deus!) não broxei mais, rsrs. Aliás algo que venho notado é uma oscilação estranha em certos aspectos: tem dias que não consigo dormir direito mesmo tomando melatonina, outros durmo pra cacete; tem dias que estou com zero desejo sexual e em outros estou subindo pelas paredes de tesão; o mesmo acontece pra fome. Obviamente não estou 100%.

Continuo me sentindo mal e culpado por ter meus pais sozinhos no Brasil, por ter abandonado minha profissão, por ter camadas e camadas de complexidade pra resolver devido ao fato de morar no exterior. O que balanceia isso tudo é a vida tranquila e segura que tenho aqui, o business da Bia que está indo muitíssimo bem e o fato dela estar contente por morar aqui (embora esteja sendo uma
santa por me aturar chato pra caralho), porém sei que isso não é sustentável no longo prazo e que provavelmente voltaremos mesmo ao Brasil.

O que me deixou bem pra baixo nesses dois meses é a questão do meu diploma. Corri atrás, gastei dinheiro, passei raiva, mandei emails, enfim, fui atrás de resolver isso mas sem muito sucesso. Documentos da faculdade brasileira continuam dificeis de sair, informações muito desencontradas e extrema má vontade das faculdades portuguesas que podem fazer o reconhecimento. No meio do
caminho um leitor aqui do blog comentou que passou por uma experiência muito semelhante e jogou a toalha após 2 anos, pessoas em grupos de validação de diploma no exterior relatam o mesmo. Cheguei até a mandar currículos para as empresas na tentativa de conseguir um emprego na área
mesmo sem validação da licenciatura. Nada. Parar minha vida 5 anos pra "tirar o curso" novamente não me parece ser muito viável (mais abaixo). Ainda tem água rolando por baixo dessa ponte, mas está cada vez secando mais...

Nesses últimos dois meses tenho pensado muito sobre alternativas à toda essa bagunça que me enfiei e talvez a única conclusão que cheguei é que preciso de algo desafiador que coloque meu cérebro pra trabalhar. Pensei em tocar o projeto de fazer outra faculdade mas como disse acima, não acho viável por várias razões:

1- O curso superior na minha área possui processo seletivo (como se fosse um vestibular) que engloba matérias que não tive no ensino médio Brasileiro, seria necessário estudar à parte pra passar nisso, sem contar que nem o português brasileiro costuma ser aceito (não respeitam muito o
acordo ortográfico por aqui). Outra alternativa seria usar o Enem que nunca fiz e mesmo se tivesse feito não poderia usa-lo como Italiano, sendo assim teria que pagar as "propinas" (mensalidades) como brasileiro. Sem processo seletivo me resta o equivalente aos cursos técnicos que existem no Brasil onde após 4 anos eu poderia exercer função inferior, com salário também inferior.

2- Parar 4 ou 5 anos da minha vida pra no fim das contas ser um profissional estrangeiro acima de 40 anos sem experiência não me parece muito legal. Difícil saber se isso seria um problema ou não porém é algo que devo ponderar.

3- Financeiramente 4 ou 5 anos comendo minha renda passiva pra viver fará um rombo mais pra frente quando estiver velho e precisar dessa grana pra viver. Não posso jamais esquecer que Bia e eu teremos uma velhice solitária e que seremos totalmente dependentes da gente mesmo (efeito
colateral de não ter filhos).

4- No frigir dos ovos os problemas relacionados à nossos pais envelhecendo no Brasil continuaria e não pode ser mudado.

Esse número 4 também é o principal fator que me impede de tentar alternativas como mudar pra Inglaterra antes do Brexit e tentar algo novo que nem sei ao certo o que, o outro motivo é que Bia não tem a mínima vontade de aprender inglês e fica completamente surtada na ausência de sol. Assim como ela abriria mão de viver aqui em Portugal onde se adaptou bem e tem um business com
números invejaveis, eu abro mão de morar na Inglaterra por ela. Casamento é isso, dois se tornam um só.

Uma alternativa de "desafio cerebral" que tenho pensado muito nos últimos tempos é algo que quem me acompanha a mais tempo irá dizer: "Eu sabia!". Tenho pensado em empreender novamente caso retorne ao Brasil. Empreender aqui em Portugal é fora de questão porque não vejo onde nem como, também não vale a pena investir no negócio da Bia porque é algo bem atípico e que não vira melhor com mais investimento. Por outro lado empreender no Brasil ainda pode ser uma boa ideia, ainda mais fazendo de maneira racional e com pensamento no longo prazo. Basicamente minha ideia seria trabalhar mais um tempo na minha área, sugar o máximo de conhecimento possível e empreender em algo relacionado com foco no longo prazo. Se antes eu empreendi para ganhar no "trade" das lojas, hoje penso em ter um negócio para a vida. Algo pequeno, que não exija muito de mim, que permita longas ausências mas que ao mesmo tempo tenha minha cara. Um projeto de vida mesmo, algo como nunca fiz antes.

Estou lendo um livro muito interessante e que tem me ajudado bastante na formatação dessa ideia, chama-se "Company of One: Why Staying Small Is the Next Big Thing for Business", o título é auto-
explicativo e tem tudo a ver com minha filosofia de vida minimalista. Farei um resumo aqui no blog quando terminar de ler, até para meu próprio estudo posterior. (uma série de posts sobre um novo negócio seria do caralho, não?). Tenho estudado bastante sobre estoicismo (sugestão de alguém aqui no blog) e tem me ajudado muito.

Então é isso, provavelmente voltarei ao Brasil, não tenho um prazo certo mas o que penso é insistir no lance do diploma até o fim do ano, se um milagre acontecer e conseguir trabalhar na área seria legal devido à experiência diferente, mas já não penso como algo pro resto da vida, já não acho que ficaremos aqui por muito tempo. De qualquer maneira estou juntando uma grana no Brasil para me reestabelecer e enquanto isso vou tocando por aqui, aproveitando o que Portugal me oferece. Esses dias Bia e eu fizemos uma viagenzinha de verão e foi gostoso pra desbaratinar a cabeça mas não fiquei com vontade de viajar mais, conhecer mais, sei lá... as coisas mudam.

Mais uma vez agradeço à todos que me ajudaram e fiquem a vontade pra comentar, fazer críticas e sugestões. Abraço!

domingo, 26 de maio de 2019

Um Ano em Portugal, e Aí?

Toc, toc, toc, tem alguém aí? Voltei pra tirar as teias de aranha do blog, acho que nunca fiquei tanto tempo sem escrever, hoje vou falar um pouco de como vai minha vida após um ano que saí do Brasil (na verdade já faz mais de um ano, mas você entendeu, né?). Aviso que esse texto será longo e chato, sinta-se a vontade pra sair agora.

Poderia muito bem vir aqui e dizer o que todos esperam: morar no exterior é uma maravilha, não tenho a mínima vontade de voltar para o Brasil, que minha vida aqui em terras lusitanas vai de vento em popa... mas não, isso não seria verdade. A verdade nua e crua é que minha vida se tornou um verdadeiro caos nesse último ano, mudar para Portugal foi uma decisão acertada da qual provavelmente jamais me arrependerei mas isso não quer dizer que foi a melhor coisa a ser feita e principalmente, o timing não me parece nem um pouco acertado.



Vou começar pelos sintomas e depois vou falar um pouco das causas. Embora esteja magro, com um corpo legal que jamais tive, minha saúde está um lixo. Estou tomando remédios para a pressão, antidepressivos e de vez em quando remédio pra dormir. Tenho hipertensos na família e não é a primeira vez que tenho que confrontar isso, no Brasil, na época que tinha as lojas cheguei a parar no hospital com a pressão na puta que pariu e começo de infarto, aqui não chegou a tanto, mas dores de cabeça matinais me despertaram pra esse velho problema. Quanto ao antidepressivo foi meio uma decisão minha ao perceber que não andava nem um pouco bem do ponto de vista psicológico, cheguei ao ponto de ter até pensamentos suicidas (estou expondo isso aqui porque acredito ser algo muito sério e que se alguém está passando pelo mesmo deve procurar ajuda imediatamente), conversei com um amigo médico brasileiro que me orientou nesse sentido. Meu sono sempre foi bagunçado mas desde que mudei pra cá é difícil uma noite que consigo dormir sem ao menos tomar uma melatonina, sendo que por vezes é necessário tomar algo mais forte. Outro problema de saúde importantíssimo que comecei a ter foram problemas sexuais, andei a brochar mais que o normal para minha idade e quem é homem sabe que isso é mais assustador que perder um braço. Tudo isso está sendo controlado com medicação mas isso não me deixa nenhum pouco feliz. A hipertensão eu sei que é algo que convevirei pro resto da vida, mas o resto não.

O que está causando tudo isso? Difícil responder de forma objetiva, acredito que é uma somatória de fatores relacionados à mudança para Portugal. Mudar muda você, faz exacerbar problemas, te dá uma alta dose de auto-conhecimento que chega a ser assustador. Ao mudar de país você se dá conta dos seus limites, do que te traz segurança e o que destroi sua mente. Isso me atingiu como um golpe do Balboa. A vida em Portugal é maravilhosa, vivo numa cidade linda, tranquila e segura, as pessoas são amigáveis, a comida é boa, o custo de vida acessível... o que mais eu quero pra vida? Muita coisa...

Hoje estou mais próximo dos 40 anos que dos 30 e começo a me dar conta do que realmente tem valor e importa na minha vida e entre elas está o trabalho. O trabalho que nós aqui na blogosfera tentamos excluir de nossas vidas a qualquer preço através do tal FIRE (Financial Independence, Retire Early), o trabalho que todos nós usamos como alavanca tão somente para a sonhada independência financeira é o mesmo trabalho que nos faz gente e muitas vezes não nos damos conta disso. A velha frase "o trabalho dignifica o homem" é talvez o ditado mais simples e objetivo de todos. O fator trabalho é talvez o que está destruindo minha vida.

Um breve histórico da minha vida profissional: vim de uma família classe média baixa, onde meu pai sempre viveu de rolos e considerou como fracassado toda e qualquer pessoa que trabalhasse pra outra pessoa, na cabeça dele você só é gente se for "seu próprio patrão", mesmo que isso signifique ter 465 altos e baixos durante a vida colocando sua família em stress constantemente. Minha mãe tem curso superior mas nunca exerceu direito a profissão por preguiça mesmo. Aos 16 anos eu comecei a trabalhar de verdade, com carteira assinada e tudo (até então tinha feito alguns bicos), aos 19 já era gerente. Aos 21 comprei uma loja e entrei na faculdade, a ideia era trabalhar naquilo que estava estudando logo após concluir a faculdade, momento esse que venderia a loja. Ter a loja era bom por dois lados: eu não seria "fracassado" enquanto estivesse na faculdade, além de ganhar um bom dinheiro. Dinheiro esse que me manteve como empreendedor durante mais de uma década me impedindo de trabalhar na área de formação que tanto gostei. Quando chutei o pau e deixei de ser empreendedor fui trabalhar na área de formação e rapidamente de adaptei a tal ponto de conseguir promoções rápidas e ser reconhecido no ambiente de trabalho como um profissional de grande qualificação. 3 anos nessa vida, passei o facão e vim morar em Portugal onde tenho um trabalho que não agrega em nada a minha vida e a vida das outras pessoas. Entende de onde vem a depressão relacionada à vida profissional?

Durante os anos de empreendedor eu não gostava do que fazia (basta ler os posts antigos do blog e perceberá) porém aquilo ocupava minha cabeça, me desafiava todos os dias e principalmente, me trazia dinheiro. Esse dinheiro das lojas me proporcionou a independência financeira e a possibilidade de me aposentar com menos de 35 anos de idade, mas também me proporcionou a segurança suficiente para que eu me aventurasse na minha área de formação e foi isso que fiz. Essa mesma independência financeira me proporcionou a maravilhosa chance de morar no exterior legalmente e sem grandes preocupações com relação à grana. E isso fodeu tudo!

FIRE

Eu sei, eu sei, se você que está lendo é uma pessoa endividada ou tem seus 50k investidos e pensa todos os dias em parar de trabalhar provavelmente vai discordar de mim mas a verdade é que o trabalho não é tão ruim quanto parece ao mesmo tempo que se aposentar cedo é muito mais perigoso que comer traveco sem camisinha. Vou repetir mais uma frase mela cueca: "encontre um trabalho que você ame e nunca mais terá que trabalhar um dia na vida", essa frase não pode ser levada ao pé da letra mas não pode ser ignorada.

Se você tem 30, 40 ou 50 anos e pensa em se aposentar, pense novamente. Isso vai destruir sua vida. Ao invés disso é muito melhor achar um trabalho que lhe traga certo prazer e bem estar, uma rotina tolerável e uma grana razoável. Difícil? Não sei, depende de você, mas pra mim isso foi extremamente fácil... no Brasil. Veja como estava no Brasil e agora em Portugal:


  • Trabalhava na minha área de formação, tinha uma rotina meio fodida porque isso é intrínseco da profissão, todos os dias me sentia realizado por realizar meu trabalho, aquilo me fazia bem. Conversava com muitas pessoas todos os dias, ou seja, tinha uma socialização bacana o que é importante para alguém introspectivo e tímido como eu. Ganhava meus R$ 5.000,00 o que pode não parecer muito dinheiro mas é mais que suficiente para o estilo de vida que Bia e eu temos. Resumindo: o trabalho era legal, a rotina tolerável, o dinheiro razoável a ponto de não precisar usar renda passiva. (lembrando que Bia também trabalhava e o household income era coisa de R$ 8.000,00 à R$ 10.000,00 mensais).
  • Em Portugal a rotina é ótima, tenho folga pra caramba, o trabalho não exige absolutamente nada de mim além de certo preparo físico, o dinheiro é ok porém me sinto um robô humano que chega pra trabalhar, bate o dedo, trabalha, bate o dedo e vai pra casa sem aprender ou ensinar absolutamente nada.
Você deve estar pensado: Corey, você tá com frescura, esse negócio de realização pessoal é viadagem, o importante é dinheiro no bolso. Concordo em partes porém sou daqueles bobões que ainda acreditam que devemos fazer algo bom pra sociedade.

Você também me questionaria: Caralho Corey, se trabalhar na sua área é tão importante pra você, por que não corre atrás de fazer isso aí em Portugal? A resposta é que não é tão simples quanto parece, basicamente são necessários 3 anos de estudos além de uma enxorrada de papelada que está bem difícil de conseguir. Resumindo: possível porém inviável.

Mais uma questão que você me faz: Porra Corey, você tem independência financeira, vai viajar o mundo, esquece isso de carteira assinada. Resposta: tanto pra mim quanto pra Bia viajar tem perdido a graça! As cidades européias parecem todas iguais, o planejamento de viagem parece cansativo demais perante o benefício (lembrando que vivemos numa cidade 150km longe do aeroporto mais próximo e temos um cachorro que não temos onde deixar, então a alternativa mais viável pe viajar de carro). Lembra que falei de auto-conhecimento no começo do texto? Pois é, aqui vai um exemplo: descobrimos que nosso estilo de viagem é bem simples: cruzeiro ou Orlando (taquem as pedras).

Bia e eu somos simplões, ela vem de uma origem ainda mais humilde que a minha. Já fizemos muitas coisas diferentes na vida, inclusive provar coisas mais sofisticadas mas quer saber, nossa felicidade está mesmo nas coisas simples. Ter uma rotina de trabalho, dinheiro suficiente pra ir no restaurante e comer o que temos vontade, um carro simples e confortável são coisas que valorizamos mais que viagens luxuosas, casa enorme e cacarecos de "gente rica".

Adendo: Bia, minha esposa, se adaptou muito melhor porque ela tem um perfil profissional menos intelectual e acabou trabalhando aqui com a mesma coisa que fazia no Brasil, além disso ela é uma pessoa extrovertida o que facilita muito a adaptação em qualquer lugar.

Voltando aos problemas que surgiram pela mudança para Portugal. O principal é relacionado ao trabalho, não me sinto nenhum pouco realizado, sei que tenho muita lenha pra queimar antes de parar de trabalhar e me sinto muito subutilizado mas além disso há outras coisas que pegam:
  • Família: bem ou mal Bia e eu temos nossos pais no Brasil. Por pior que seja minha relação com eles eu sei que devo honra-los e tomar a responsabilidade de ajuda-los na velhice. Acredito que do ponto de vista financeiro não será necessário ajuda, mas de resto sinto-me mal por não estar presente. Isso é algo que me martela a cabeça todos os dias. Mais uma vez, o auto-aprendizado.
  • "Amigos": coloco entre parentes porque não temos amigos de verdade mas temos uma rede de gente conhecida e querida da qual sentimos falta. No meu caso são quase todas pessoas relacionadas ao trabalho onde piadas internas são engraçadas e onde conhecimento técnico é trocado. Sinto falta.
  • Tranquilo até demais: Brasil é caótico, isso não é novidade, ainda mais pra quem é de Sampa como eu, mas quer saber, o sossego demasiado que temos aqui chega à irritar. Porra, moro numa cidade até que grande, estruturada e às 15h é impossível almoçar, simplesmente não existem restaurantes abertos a não ser no shopping. Pra ir numa balada tenho que dirigir 95km e mesmo assim é uma balada caída pra caralho.
  • Complexidade: morar no exterior traz muita complexidade. Exemplo 1: precisei de um documento brasileiro, pra conseguir esse documento fiz um requerimento on-line, ok até aqui, porém pra retirar esse documento foi necessário alguém com uma autorização à próprio punho, enviei essa autorização via correio, a pessoa foi lá e buscou o documento. Paguei R$ 250 para enviar esse papel para Portugal, chegando aqui, o papel não era suficiente, deve ser refeito, aí volto à estaca zero. Exemplo 2: Tenho uma conta do Itaú que é necessário desbloquear um itoken pelo caixa eletrônico toda vez que o App é reinstalado ou por vezes até quando é atualizado, acontece que não há caixa do Itaú aqui e o banco não está preparado para lidar com cliente que moram no exterior, a única maneira de desbloquear saporra é fazer uma reclamação forma no ReclameAqui ou no Procon. Ok, não uso mais o Itaú e sim o Inter que é mais simples, mas deu pra entender como a complexidade aparece...
  • Eurizar ou não. Moro na Europa, meus investimentos estão no Brasil. Trago dinheiro para a Europa pagando câmbio cada dia pior e invisto em ativos europeus que possuem rendimentos que mais parecem piada e risco duvidoso ou mantenho no Brasil onde temos bons rendimentos e onde o rendimento dos investimentos é mais que suficiente pra me dar um padrão de vida legal? Pulverizo entre as duas opções e não ganho nem a rentabilidade brasileira nem a proteção do Euro? Complicado isso... penso em efetivamente usar o dinheiro dos meus investimentos quando me aposentar de verdade mas e até lá, o que fazer? E onde estarei na aposentadoria? Como estará o câmbio? Punk!
Mano, morar fora é fácil pra quem tem 20 e poucos anos, tá perdido no Brasil, sem saber pra onde ir, o que fazer, está desempregado porque cursou ciências sociais ou turismo, não tem um Real no bolso. Agora pra quem já tem quase 40, tem uma situação financeira muito confortável no Brasil, boa empregabilidade, possibilidade de trabalhar com algo que gosta o buraco é mais em baixo.

Vir pra Europa me proporcionou coisas maravilhosas e como já disse, provavelmente não me arrependerei, mais coisas aconteceram nesse último ano que em mais de uma década no Brasil, entre elas foi a quebra de certos paradigmas que até então cultuavam minha cabeça:
  • FIRE: aposentadoria precoce não é pra mim. Trabalhar em algo mais fácil só pra ter uma ocupação também não é pra mim. Se dedicar à hobbies também não é pra mim. Gosto de ter um trabalho de verdade, de no fim do dia pôr a cabeça no travesseiro e ter a certeza que fiz coisas úteis para a humanidade através do meu conhecimento e meu trabalho. Marcenaria é legal, mas fazer banquinho e mesinha não vai me trazer grandes benefícios.
  • Independência financeira como um destino: ter independência financeira é lindo e digo pra qualquer um que esse objetivo deve ser atingido por todos, saber que você não depende do trabalho para comer é libertador, entretanto IF não é um fim e sim uma ferramenta de melhora de qualidade de vida. 
  • Morar na Europa é muito melhor que no Brasil. Mentira! Isso pode ou não ser verdade mas o fato é que morar no exterior é o novo símbolo de status da classe média brasileira e eu caí nisso! Justo eu que sempre me gabei por não seguir normas sociais caí na armadilha mais cara e perigosa da sociedade onde estou inserido
No fim das contas a única coisa incontestávelmente positiva que há em morar em Portugal é a segurança. Isso é indiscutível e talvez o único fator que ainda me segure por aqui. Acho que se eu voltar ao Brasil terei alguns problemas de adaptação em relação à isso mas no fim das contas, toda minha família e rede de conhecidos tá no Brasil se desviando das balas perdidas. 

O resumo da ópera é que não sei exatamente qual rumo tomarei, existe a grande possibilidade de retornar ao Brasil mas ainda não tenho nada decidido. Bia e eu estamos conversando muito mas ainda está difícil ver o que é mais certo a fazer. Agredeço muito qualquer comentário que me ajude a abrir os olhos para a decisão certa, a opinião de quem está de fora é sempre importante.

Acho que passou da hora de finalizar isso, peço desculpas pelo texto meio mal feito e sem nexo mas hoje senti uma necessidade imensa de organizar meus pensamentos, por isso achei que escrever aqui poderia ser legal... e realmente foi, agradeço pela compreensão de todos e deixo aqui algumas frases nas quais tenho pensado muito:

"Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom." (Tom Jobim)
"At the end of the day, you are who you are" (não sei onde ouvi isso)

Deixo também um vídeo cujo tema tenho pensado muito: Zona de Conforto. Será que é tão ruim assim viver dentro de uma zona de conforto e não "sair da caixa"?



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