quarta-feira, 25 de julho de 2018

Sobre Taxis, MFII e VdC

Em 1999 Earl Johnson, então com 61 anos e sofrendo de severas dores em seu joelho esquerdo, fez sua última viagem como taxista em Nova Iorque à bordo de seu clássico Checker 1978. Era o fim de uma era, os taxis Ckecker (empresa americana especializada em fabricar carros para taxi com mecânica GM) não mais seriam vistos nas ruas de NYC, eram muito ultrapassados para passar bas inspeções e novas regras.

Earl Johnson era um abençoado dono de "medalhão", ou seja, era o seu próprio patrão, havia comprado sua licença de taxi ainda nos anos 70 e agora com a aposentadoria os planos eram tocar um hotel tipo bed and breakfast em sua cidade natal na Jamaica e complementar a renda com o aluguel de seu medalhão, o que em 1999 representaria cerca de USD 1.400 por mês. Nada mal se você considerar que 1999 um medalhão valia cerca de USD 200k. Medalhões de taxi de NYC foram um dos investimentos mais rentáveis, fiáveis e robustos dos últimos 80 anos, eram deixados como herança, muitas pessoas se aposentaram com conforto ao alugar ou vender suas licenças, verdadeiros impérios foram montados por frotistas, corretores e todo tipo de comércio e serviço associado aos taxis de NYC. Se Mr Johnson ainda estava vivo em 2014 deve ter ficado extremamente feliz ao saber que seu medalhão valia incríveis USD 1.400.000!!! Com toda certeza os USD 1.400 de 1999 não foram apenas corrigidos pela inflação, quem sabe Mr Johnson não se empolgou, vendeu seu B&B e decidiu viver somente da renda de sua licença de taxi...

Mas se Mr Johnson ainda está vivo em 2018 provavelmente deve estar para morrer porque seu medalhão agora vale, com sorte, USD 150k e provavelmente não acha motoristas dispostos à aluga-lo. Culpa do Uber! O que antes era sinônimo de tranquilidade financeira agora se tornou um pesadelo... Desde 2014 o preço das licenças só caiu, há muita gente quebrada, devendo até o fiofó e com "ativos" em mãos que depreciam a cada dia. Os Uber e Lyft da vida são os responsáveis por essa queda, vemos histórias semelhantes em todas as cidades do mundo, em São Paulo não foi diferente, muita gente quebrou após o aparecimentos desses aplicativos. Quem devemos culpar? A Uber? Os motoristas? Os donos de licenças?

Todos sabemos que Uber, Transferwise, bancos digitais, Netflix, Airbnb são exemplos de empresas que chegaram com o pé no peito e quebraram ou estão quebrando muitas indústrias consolidadas à séculos, é simplesmente a evolução, somente isso. Não há nada de errado com a Uber, eles não são uma empresa malvada criada exclusivamente para quebrar medalhões, eles são somente uma empresa que trouxe uma inovação, um serviço melhor, mais prático, mais barato e menos burocrático que os taxis. A culpa também não é dos "gananciosos" donos de medalhões que "enriqueceram à custas" de motoristas imigrantes. Muita gente vê como absurda e ilógica a compra de licenças de taxis, porém são ativos como qualquer outro, até muito mais tangível que ações, por exemplo. Muitas pessoas investiram nesse mercado porque o histórico era excelente, perceba que por quase um século esse foi um investimento que só deu alegria aos investidores. Why not??? Quem nos anos 70, 80, 90 e começo dos 2000 iria prever o aparecimento de algo como a Uber? Volto à pergunta: Quem devemos culpar? A Uber? Os motoristas? Os donos de licenças? NINGUÉM! A culpa é de ninguém. Talvez seja da evolução, mas é difícil culpar um conceito...

Recentemente tivemos o pioneiro caso da suspensão da negociação das cotas do MFII, basicamente a CVM encontrou um monte de picaretagem nesse fundo e decidiu, ao meu ver de maneira correta, suspender a negociação dos papéis até que tudo seja esclarecido. Como cotista do fundo, cerca de 24% da minha carteira de FIIs está nele, sou muito afetado por esse enrosco todo mas inesperadamente não estou arrancando os cabelos.

Entrei nesse fundo sabendo que era meio obscuro, aliás TODOS os FIIs são meio obscuros, pelo menos pra mim que sou caipira e tenho extrema dificuldade em entender os prospectos e demais documentos relativos aos FIIs. Sabia que esse rendimento de 1% ao mês era algo insustentável porém o modelo de negócio do fundo sempre me deixou confortável, então estava tudo ok. Acredito que a atitude da suspensão da negociação foi correta para não causar caos e fazer um monte de gente vender no prejuízo sem pensar, também acredito que tudo isso deve ter sido disparado por algum player grande que deseja entrar no fundo com preço mais baixo porém isso não tira o mérito da investigação, tem que investigar sim e tem que deixar o fundo o mais certo possível. Quando digo o mais certo possível quero dizer o mais certo POSSÍVEL, isso porque é IMPOSSÍVEL ter qualquer negócio 100% certo.

Se tem uma coisa que aprendi durante meus anos de empreendedor é que todo e qualquer negócio, independente do porte, ramo de atuação e saúde financeira, faz sim muitas picaretagens. Os trambiques são inerentes de qualquer negócio e quase sempre a principal causa do fracasso, seja pelo excesso ou seja pela falta de trambicagem. Uma das coisas que me arrependo dos tempos de empreendedor é não ter sido mais trambiqueiro, eu era um idiota que tentava fazer as coisas certas, não conseguia, perdia dinheiro, perdia saúde e tempo enquanto todos os outros pegavam o caminho torto e chegavam no destino. Demorei muito pra aprender que fazer coisas erradas com moderação é sem dúvidas necessário ao sucesso de qualquer empresa. O mesmo se aplica à grandes empresas, tive a oportunidade de estar dentro de duas empresas listadas em bolsa e o que vi eram coisas bizarramente maquiadas somente para inglês ver e amansar cotistas. Se essas empresas fazem certas coisas escancaradamente na frente da peãozada, imaginem o que não fazem em planilhas de excel. Como disse, sou caipirão e não sei uma fração do que muitos colegas blogueiros e o pessoal que acompanha a blogosfera sabe em relação à investimentos, porém uma coisa eu sei: não existe negócio 100% confiável, ainda mais quando todo o acesso que você tem à eles é através de PDFs e planilhas.

A blogosfera continua abalada com o falecimento do VdC, um cara jovem, trabalhador, sonhador em busca da independência financeira como todos nós. É inevitável a tristeza devido principalmente à semelhança que ele tinha conosco. Aqui na blogosfera temos de tudo, todo tipo de gente com diferentes backgrounds, diferentes estilos de vida... porém uma coisa temos em comum: pensamos em dinheiro como ferramenta de vida e buscamos liberdade financeira. Lembro que ele talvez seja o terceiro blogueiro que nos deixa, os outros foi o Lord e o Matuto (esse último nem cheguei a conhecer).

Essa tal liberdade financeira foi o que levou Mr Johnson à alugar sua licença de taxi e viver dessa renda, foi o que levou à várias pessoas fazerem empréstimos para comprar seus medalhões e agora estarem quebrados e com dívidas porque uma indústria foi virada de ponta cabeça pela evolução. Foi a evolução que quebrou centenas de micro-empresários donos outrora rentáveis vídeo locadoras, oficinas de eletrônicos, alfaiates... É a liberdade financeira o motivo que faz as pessoas investirem em MFII ou outro papel qualquer, porém no fim das contas todos nós teremos o mesmo fim que o VdC, mais cedo ou mais tarde...

O que quero dizer com toda essa ladainha é que não há investimento 100% seguro porque por mais projeções que você faça, tudo pode mudar com um piscar de olhos. Todo investimento tem pessoas por trás e essas pessoas possuem o mesmo desejo que você: liberdade financeira, logo irão buscar isso à custos nem sempre lícitos. Existem muito, mas muito mais fatores que você não controla que aqueles que você pode mudar: não sabemos a data de nossa morte, não sabemos se os mercados vão mudar, se as leis vão mudar, se a economia vai piorar à nível Venezuela ou não...Enfim, meu alerta é que talvez a independência financeira como nós conhecemos não exista realmente, talvez viver de renda seja mais um fetiche de nossas cabeças que qualquer outra coisa. Então é pra sair torrando toda a grana com puta, cachaça e jogos de azar? Claro que não! Não estou advogando pelo "viva como se não houvesse amanhã", estou advogando mais uma vez pelo equilíbrio. Não deixe de tomar um café, levar seus filhos à praia ou à Disney, não deixe de comer naquele restaurante bacana com sua esposa no aniversário de casamento (jamais esqueça o aniversário de casamento, aliás, essa é a única data que comemoro), se o dinheiro pode melhorar algo relevante em sua vida, mude!

Não se prive de tudo em busca da IF, ela pode nem chegar, e quer saber, é provável que não chegue mesmo. Ah Corey, mas você se diz IF... Sim, tenho IF pelo conceito que minha renda passiva pagar minhas despesas básicas e só. Jamais me sentiria seguro em parar de trabalhar ou depender dessa renda pro resto da vida, nem se tivesse o dobro eu confiaria. Tudo pode acontecer, essa renda pode diminuir ou mesmo cessar a qualquer momento por motivos que talvez nem existam ainda (lembre-se, quando Mr Johnson comprou sua licença de taxi a Uber sequer era imaginada). Caralho Corey, como você é pessimista!!! Pode ser, mas é esse "pessimismo" (que prefiro chamar de realismo) que me deixa seguro.

Busque a IF mas mude seu mindset, veja a IF como um patamar de segurança financeira onde você terá mais liberdade para mudar o rumo da vida: mudar de país (como eu fiz), ver seu filho crescer ao trabalhar menos horas ou num trabalho menos estressante porém menos rentável, fazer um trabalho voluntário, cursar uma nova faculdade, you name it. Acredito severamente que esse acontecimento com o VdC deve nos fazer mudar a forma como enxergamos a IF.

A propósito, não vou torrar todo meu dinheiro com bobagens, mas com certeza após o ocorrido com MFII e o VdC "investirei" mais em mim e menos no mercado, talvez aquela road trip pela Europa saia mais cedo que o imaginado, por exemplo. Sei que o texto ficou longo e chato mas, aos que chegaram até aqui, espero ter passado alguma mensagem, feito você refletir sobre o que está fazendo da sua vida.

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