domingo, 12 de abril de 2015

Onde é melhor empreender? Periferia ou bairro nobre?

Primeiramente gostaria de deixar claro que sim, eu tenho uma forte tendência de não gostar de coisas relacionadas a favelas, "comunidades" e "coisas de pobre". Podem me chamar de esnobe, de metido do raio que o parta... Sou assim e pronto! Não vejo o menor glamour em ser humilde, passar fome, etc. Então esse post é sim parcial, é uma opinião, e como toda opinião não existe certo ou errado.

Durante minha adolescência trabalhei para um senhor português dono de uma pequena rede de lojas, costumo dizer que ele foi meu "pai rico", com ele aprendi muito do que sei hoje sobre empreendedorismo e principalmente sobre a vida. Ele tinha lojas espalhadas por todos os cantos da cidade, desde bairros nobres até quebradas, dentro da favela mesmo. Durante algum tempo fui seu "pau pra toda obra", era sempre eu que cobria todo e qualquer buraco em sua equipe de funcionários. Um cara da loja dos Jardins faltou? Manda o Corey! O gerente da loja de Parelheiros está doente? Manda o Corey! Sou muito grato a essa época porque além de aprender todas as nuances do trabalho, conheci lugares e pessoas muito diferentes. Nessa época rodei a cidade, lidei com todo tipo de cliente e passei por todo tipo de situação que você imaginar, com isso adquiri uma experiência precoce que me ajudou a trilhar meu próprio caminho no empreendedorismo.

Empresa na favela? Não obrigado, não é pra mim, mas
pode ser pra você...
O Portuga sempre me disse que suas lojas começaram no que hoje são os bairros nobres, mas que a 40 anos atrás eram apenas bairros em crescimento, "vila-sem-reboque" como ele se referia. No começo eram bairros simples, veja que ele foi pra Moema quando ainda se chamava Indianópolis, as ruas eram de terra e DC-3 eram comuns em Congonhas. Com o tempo a população evoluiu e as lojas também. Conforme os negócios iam crescendo ele ia expandindo as lojas para bairros também em crescimento, assim sucessivamente... Portuga sempre disse que o melhor lugar pra ganhar dinheiro é em bairro pobre, de operários, em crescimento... Ele ainda é da época do fiado, pessoas tinham fichas nos comércios, compravam a crédito e acertavam a conta religiosamente no dia do pagamento.

Tempo desses fui visitar meu ex-patrão, ainda firme e forte trabalhando em uma de suas lojas nos bairros "nobres", papo vai, papo vem ele me confessa que fechou 3 lojas na zola leste por causa da bandidagem; Segundo ele "Corey, antigamente bairro pobre era bairro de gente direita, a gente tinha problema com bate-carteira, molecada torta que roubava uns trocados usando caco de vidro como arma mas era coisa insignificante. Hoje eu tenho que pagar 200 merréis por semana pra bandido não me assaltar na maioria das lojas da periferia, se não pago pra bandido tenho que pagar pra milícia de policial... tá certo esse negócio não, eticamente tá tudo errado... e outra, o pessoal da periferia compra no concorrente por causa de 10 centavos, eles não estão errados, mas isso atrapalha muito os negócios, diminui a margem de lucro e isso não quer dizer que o volume de vendas aumenta... tenho que lidar com uma molecada que só quer bagunça, crime todo dia na frente das lojas... barulho, música alta... as lojas são as menos rentáveis mesmo tendo o custo menor, aluguel barato... por isso estou fechando ou vendendo essas lojas, quero focar nessas das regiões melhores... meus filhos não tem paciência pra cruzar a cidade, ficar horas no carro pra administrar as lojas mais distantes..."

Concordo com o Portuga! Na época que trabalhava pra ele e tinha que ir nas lojas afastadas aprendi que é totalmente diferente trabalhar no Capão Redondo que no Campo Belo. Na periferia o giro de pessoas é muito maior, é normal ver as lojas lotadas, mas no fim das contas boa parte dessas pessoas estão apenas pesquisando preço e quando compram o ticket médio e rentabilidade são bem menores quando comparado com a região mais rica. Na periferia você monta uma loja com investimento bem menor, tem custo operacional menor porque os aluguéis são baixos e os funcionários normalmente não precisam de condução; mas por outro lado ganha menos também. Claro que não dá pra generalizar, cada ramo é um ramo, mas no fim das contas a relação custo X rentabilidade líquida acaba empatando. Na periferia você tende a ter uma venda bruta maior, mas com rentabilidade menor. Isso quer dizer que você atende mais gente, lida com mais dinheiro pra no fim das contas
Por outro lado, trabalhar na Oscar Freire não deve ser
uma coisa lá muito legal...
ganhar o mesmo que no bairro rico.

Como o Portuga disse, o grande problema de ter um negócio na periferia nos dias de hoje é a bandidagem. Coisas como pagar propina pra traficante em troca de não ter a loja assaltada 3 vezes por semana é realidade pra 99% dos comerciantes. Outra coisa muito comum é você ter que financiar família de bandido quando este está preso ou fugindo: você paga comida, água, luz, remédios pra esposa/filhos do manda chuva da quebrada. Os capangas costumam passar recolhendo "contribuições" pra sustentar a fulaninha... Experimente não pagar... Outra coisa comum são problemas com funcionários que quase sempre são da própria quebrada, contaminados com a putaria generalizada... Enfim, na minha opinião mesmo se for pra ganhar mais dinheiro, o conflito ético/moral de ter um negócio na quebrada não me deixa ter uma loja nesses lugares.

Veja o exemplo das minhas lojas. Elas estão localizadas em bairros classe média, nada sofisticados mas também não são favelizados, estão em bairros antigos mas em crescimento populacional devido aumento do número de prédios. Grande parte da minha clientela da loja antiga, por exemplo, é fiel, mesmo eu não tendo o melhor preço do pedaço. Eles valorizam o atendimento, qualidade do ambiente de atendimento mais que o preço baixo. Meu preço é competitivo, mas não o melhor da vila. Por outro lado tenho um concorrente porra-louca, cujo lema é vender barato. A loja dele está sempre cheia, mas o público é diferente, percebo que são os novos moradores do bairro. Cada um ganha de uma maneira diferente e há cliente pra ambos.

Agora veja minha loja nova. Estava totalmente ultrapassada e quebrada, após uma reforma hard-core ela ficou bonita, moderna e agradável. As vendas decolaram. Gastei dinheiro, mas esse investimento pode ser recuperado facilmente na hora de vender a loja. Coisa que não costuma acontecer na periferia. Lojas de periferia são difíceis de vender porque possuem baixo valor agregado e normalmente são distantes de onde os empreendedores moram. Tenho um colega que acaba de comprar sua terceira loja, num bairro, como diria um amigo, chiquetésimo. Pagou caro, reformou e está indo bem, bom faturamento... Já tem gente de olho em comprar a loja! Ele estima que conseguirá ganhar ao menos 50k somente em cima da reforma.

Cada um deve achar o que é melhor pra sua realidade. Eu por exemplo, quero lojas vendáveis, não ficarei pro resto da vida com a mesma loja, quero que ela seja lucrativa enquanto eu estiver com ela, mas quero conseguir vende-la rapidamente e com lucro quando chegar a hora. Não suporto lidar com gente xucra, bandidagem e pessoas mal educadas e barraqueiras, logo não posso nem considerar a hipótese de ter uma loja na quebrada, mas também não tenho saco pra aguentar nêgo metido a besta como existem nos bairros ultra tops de São Paulo. Por outro lado uma pessoa com pouco capital, muita vontade de dar certo e que não ligue pra essas questões morais pode dar muito certo na periferia, onde tudo é mais barato e mais fácil de girar. Cada um no seu quadrado.

32 comentários:

  1. Corey, o que você acha de montar uma madeireira?

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    1. Madeireira: setor regulado. Tô fora! Porém pode ser um bom negócio, vejo gente bem de vida com madeireiras...

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    2. foda é penar nas licenças ambientais... por todos os lados lidar com ibama etc...

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  2. Realmente é algo a se pensar, conheço uma garota que está fazendo uma pequena fortuna com consultório de odontologia em bairros pobres.

    Ela sofre um "bullying" dos ex-colegas de faculdade por essa decisão, mas ri em silêncio da cara deles, pois fatura bem mais que eles.

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    1. Madruga: minha dentista mesmo começou trabalhando na periferia, diz ela que fazia fila de paciente pq ela cobrava barato, ganhava no volume a acima de tudo, ganhava experiência. Depois mudou pra um bairro classe média. É aquilo, tem mercado pra todo mundo, cada um se encaixa num perfil.

      Abraço!

      Corey

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    2. essa do dentista é clássica, kkk já escutei em diversos lugares, nunca conheci alguém que tenha feito de verdade e que houvesse ´´filas´´

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    3. O que mais vejo é isso: o cara as vezes tem 2 consultórios, um num bairro pobre para ganhar no volume e outro em um bairro melhor.
      Qualquer busca em sites de planos médicos/odontológicos e você confirma isso que o Corey e o Madruga comentaram.

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  3. Corey,

    Conheci seu blog faz algumas semanas e gostei bastante, parabéns pelos textos e as ideias apresentadas neles.

    Existe algum post seu onde fale da sua relação com os funcionários? Como mantê-los engajados no dia a dia? Quais os problemas corriqueiros que te acontecem por conta deles (atrasados, faltas, roubos, etc.)? Como você resolveu esses problemas? Etc.

    Se não existir, poderia falar sobre o assunto aqui nesse espaço de comentários ou, se considerar relevante o bastante, fazer um post sobre isso futuramente (pelo que vi a pauta desse mês já está fechada)?

    Abraço.

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    1. Perfis de funcionários a se contratar:
      Melhores - http://coreyinvestidor.blogspot.com.br/2014/05/os-melhores-perfis-de-funcionarios.html
      Piores - http://coreyinvestidor.blogspot.com.br/2014/05/os-piores-perfis-de-funcionarios.html

      Algumas coisas sobre treinamento, engajamento:
      http://coreyinvestidor.blogspot.com.br/2014/05/os-piores-perfis-de-funcionarios.html
      http://coreyinvestidor.blogspot.com.br/2014/03/empreendedorismo-demitindo-funcionarios.html

      Boa leitura,
      Maluco

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  4. Corey: Olá. Sou o anônimo que no post passado recomendou a você tomar vinhos da faixa de R$30-40.
    Pois bem. Eu, mulher e dois filhos menores de 4 anos decidimos visitar São Paulo no pr´ximo feriado. Ficaremo em um flat próximo à Paulista. A pergunta, totalmente off-topic, é se voce tem restaurantes child-friendly na região para nos indicar, com um bom custo-benefício.
    Antecipadamente grato,

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    1. Child-friendly? Cara, vc perguntou pra pessoa errada, sou childfree, rsrs!!! Abraço!

      Corey

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  5. Grande Corey,

    Excelente postagem... Vou utilizá-la em um futuro :D

    Uta!

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    1. Fique a vontade Estagiário, grande abraço!

      Corey

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  6. Independente de bairro... o melhor é nem ter loja kkk aluguéis sao foda para manter uma loja, periferia ou nao, eu só teria uma em um local de gigante circulacao de pessoas com um barbada de aluguel.. enfim, prefiro ficar com day trade

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    1. Aluguel é irrelevante qd vc tem lucro. Veja pelo seu ponto de vista: o custo de corretagem e IR no Day Trade é irrelevante qdo vc realiza um bom lucro, certo? Transferindo pro empreendedorismo, aluguel é só mais um custo, o pior mesmo é pagar imposto que será desviado pela corrupção.

      Abraço!

      Corey

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    2. kkk nada pior do que impostos em um país corrupto!!!


      hoje em dia eu apenas opero day trade, porém uma época criei uma ´´fabricação´´ de jaquetas e bolsas femininas para boutique e e vendia para lojas... acabei por conhecer mais o mundo dos lojistas..

      tem que ter um capital para iniciar com uma loja, concorrência online que não paga aluguel, você tem de ser realmente bom, não é apenas abrir uma loja e esperar os clientes virem.. não mais.

      Admiro muito o empreendedorismo e os empreendedores- os salvadores da nação..

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    3. Penso assim: pagar um aluguel de 2k pra no fim das contas ter 2k de lucro líquido é complicado, pagar 10k pra ganhar 50k já é bem diferente.

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  7. para mim não da mesmo... no meu ramo já trabalhei com produto para baixa renda, media renda e alta renda... e juro... não rola atender uma pessoa que te xinga achando que esta sendo roubada, apenas porque ela não entende o que é inflação... de boa... sou muito mais passear em Nice do que em Cuba.
    Abs,
    Rudi

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    1. Nice na Franca? prefito Cuba! kkkk

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    2. Já passei por isso, ser xingado, pessoas gritando comigo... Não quero mais isso pra mim at all!

      Reza a lenda que a Cuba do turista é completamente diferente da Cuba da vida real, como nunca fui nem pretendo ir, ficarei sem saber até a CNN ir lá conferir (pelo jeito isso não vai demorar muito)

      Abraço!

      Corey

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  8. Corey

    Otima Postagem Será de Otima Utilização ..
    Obrigado Abrcs

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  9. Esse aumento de criminalidade e vagabundagem está fora de controle em SP, Parece que ninguém tem mais valores, nem direção, tá tipo uma 'sodoma e gomorra' moderna ... Eu estava comentando isso com minha namorada, nós passamos por algumas casas antigas, daquelas com portão baixo, quintal com árvores, puxa antigamente dava pra viver sem medo ali, hoje em dia as casas são literalmente prisões, fora que ta todo mundo se enfurnando em apartamentos devido grande parte à falta de segurança.... Cara pagar pra bandido é absurdo, mas também nosso país é configurado pra encorajar a pobreza, bandidagem e vagabundagem... Isso é só um resultado, causa e efeito...

    Abraços DFG

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    1. DGF:

      EU me pergunto como algumas casas ainda possuem muro baixo e aqueles portõezinhos típicos dos anos 40... Não me imagino morando numa casa assim, aliás, não me imagino morando em casa aqui no BR. Morei em casa com meus pais, na época era tranquilo, mas o bairro apodreceu e o velho se rendeu ao apartamento. Fico mais tranquilo assim... Triste, muito triste!

      Abraço!

      Corey

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  10. Fala Corey


    Belo artigo. O bairro que cresci em SP na minha época de criança dava pra brincar com a mulecada na rua, vizinhos colocavam cadeiras na calçada e conversavam até depois das 11 da noite. Hoje todas as casas com portões altos, câmera, redes eletrificadas, etc. Todo mundo com medo de sair até na calçada.


    Meu pai tem um amigo que teve pizzaria nesse mesmo bairro por quase 20 anos. Do começo dos anos 2000 prá cá ele começou a ser assaltado quase todo fim de semana. No ultimo assalto (em 2004 ou 2005) a bandidagem chegou cedo demais ou era um dia ruim, não sei, o fato é que tinha pouco dinheiro no caixa. O fdp do bandido colocou ele de joelhos no chão, botou a arma na cabeça dele e ficou ameaçando matar ele. Fez o cara chorar, implorar. Depois antes de sair ele disse "Só te deixei vivo pq vc tem que ganhar mais dinheiro pra mim."

    Ele fechou a pizzaria no dia seguinte. Uns meses depois reabriu numa cidade pequena no interior e tá lá até hoje. Nunca mais foi assaltado. De vez em quando meu pai conversa com ele por telefone. Tá bem pra caramba lá, não ganhando tanto como aqui na capital, mas com muito mais segurança.

    O que mais quebra as pernas é a bandidagem, simplesmente anda impraticável viver aqui. Tá foda.


    Abs

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    1. Fala Rover!

      O bairro que cresci é exatamente igual ao seu, se "pá" eramos vizinhos, rsrs! Lembro que eu ia pra balada com 14 anos e voltava a pé pra casa de madrugada sem problema algum. E veja que isso faz menos de 20 anos! É incrível como as coisas degringolaram rapidamente.

      Cara, eu conheço várias histórias cabeludas dessas que vc contou, mas prefiro nem comentar, sei lá, sou supersticioso...

      Por essas e outras que não me imagino com uma loja na quebrada.

      Abração!

      Corey

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  11. Bandidagem é complicada, meu irmão é farmacêutico e tem uma drogaria num bairro mais humilde, é interior então não chega a ser tão pobre. Só trabalha de porta de vidro trancada, pq se não fosse assim seria assaltado de 15 em 15 dias. Muito difícil isso.

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    1. Olá Tamires!

      Tem cidades do interior que estão piores que a capital, sempre ouço uns casos assim, triste...

      Abraço!

      Corey

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  12. Bairro pobre, estou fora. Ja trabalhei no pior ambiente que pode existir que é o de balcão de atendimento em um hospital de Diadema. Um povo ignorante, burro, grosso e FDP que se portam como macacos mas querem ser atendidos como lordes. Quebrada eu tô fora! Se depender da terra dos manos pra ganhar dinheiro, morro pobre!

    Ass: Antidireito.

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  13. Tenho um prédio próprio em um bairro que não é favela e nem bairro nobre. Tem 2700 metros quadrados e 1200 de área construída, estacionamento interno, construção nova. Quero montar um hostel. Penso que mesmo não sendo no centro da cidade, com uma boa estrutura, conforto, divulgação nas redes sociais, booking, trivago e outros, posso ter êxito. O que me diz?

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